quinta-feira, 1 de abril de 2021

Habitação e Poupança

 

Para comprar casa é hoje necessário ter-se poupanças, não só para fazer face aos gastos associados à aquisição de habitação, como sejam os impostos, a avaliação, os seguros e a escritura, mas também para dar como valor de entrada no processo de aquisição. Isto porque, apesar da crise económica decorrente da pandemia por covid-19, os bancos mantêm-se abertos à concessão de crédito à habitação, mas não a 100%. Assim, o valor do empréstimo para compra de habitação própria permanente é agora de 80 a 90% do valor da compra ou da avaliação do imóvel (o menor dos dois).

Desta forma, há que fazer contas ao valor que será necessário ter de reserva antes de iniciar o processo. Segundo dados do Idealista, em território nacional, 7.000€ será, em média, o valor mínimo que deverá ter disponível para aquisição de um imóvel com recurso a crédito. Valor que irá variar de acordo com a tipologia, região e condição do imóvel pretendido.

Numa análise feita ao preço do m2 nas 20 capitais de distrito de Portugal continental e Ilhas, Lisboa, Faro, Porto e Funchal assumem os lugares cimeiros, por oposição a Guarda, Castelo Branco e Beja, que se apresentam no fim da tabela.

Assim, a poupança mínima que deverá garantir para aquisição de habitação em Lisboa é de 87.000€, 60.000€ em Faro, 59.000€ no Porto e de 50.000€ no Funchal, e será de 7.000€ no caso do interesse recair sobre um T1 nos três distritos mais baratos.

Estas assimetrias numéricas estão intimamente relacionadas com o desenvolvimento das regiões e, sobretudo, com o turismo, onde as regiões do litoral se assumem preferenciais, face ao interior do país.

No que a valores médios diz respeito, o Idealista/data informa-nos que o valor médio do m2 em Portugal, no último trimestre de 2020, era de 2147€. Em Lisboa fixava-se nos 3346€/m2, em Faro nos 2368€/m2, Porto apresentava como valor médio 2140€/m2, Funchal 1687€/m2 e Beja 777€/m2.

Quanto a variações, verificou-se, no mesmo trimestre, uma subida de 45€/m2 (+1,37%) em Lisboa, de 43€/m2 (+1.91%) em Faro, 87€/m2 (+4,35%) no Porto, 9€/m2 (+0.56%) no Funchal e uma variação negativa em Beja de 32€/m2 (-1.61%).

Quanto à mediana, em dias, que um imóvel permanece no mercado, Beja apresentava-se, no último trimestre de 2020, entre os 5 distritos atrás mencionados, como o distrito onde a venda é mais morosa, 218 dias, seguindo-se o Funchal com uma média de 149 dias, Faro com 125 dias, Porto com 114 e Lisboa com 89 dias.

Daqui resulta que uma maior procura significa uma maior rotatividade de imóveis no mercado que, por sua vez, tem implicações directas no valor do m2. 

Analisemos, então, os valores médios por tipologia e a poupança necessária, a eles associada, em caso de recurso ao crédito à habitação. Note-se que, a condição dos imóveis (estado de conservação), a idade, a existência de nova construção ou ausência dela em cada um dos distritos, têm um peso considerável nos valores apresentados.

T0

Beja (valor médio de venda): 85.500€

Beja (poupança necessária): 11.000€

Funchal (valor médio de venda): 137.720€

Funchal (poupança necessária):17.000€

Porto (valor médio de venda): 162.289€

Porto (poupança necessária): 22.000€

Faro (valor médio de venda): 204.392€

Faro (poupança necessária): 30.000€

Lisboa (valor médio de venda): 265.203€

Lisboa (poupança necessária): 41.000€

 

T1

Beja (valor médio de venda): 52.413€

Beja (poupança necessária): 7.000€

Funchal (valor médio de venda): 170.169€

Funchal (poupança necessária): 22.000€

Faro (valor médio de venda): 171,195€

Faro (poupança necessária): 24.000€

Porto (valor médio de venda): 181.001€

Porto (poupança necessária): 25.000€

Lisboa (valor médio de venda): 287.564€

Lisboa (poupança necessária): 45.000€

 

T2

Beja (valor médio de venda): 70.958€

Beja (poupança necessária): 9.000€

Funchal (valor médio de venda): 223.639€

Funchal (poupança necessária): 31.000€

Faro (valor médio de venda): 220.985€

Faro (poupança necessária): 33.000€

Porto (valor médio de venda): 255.242€

Porto (poupança necessária): 39.000€

Lisboa (valor médio de venda): 393.262€

Lisboa (poupança necessária): 65.000€


T3

Beja (valor médio de venda): 107.152€

Beja (poupança necessária): 14.000€

Faro (valor médio de venda): 350.602€

Faro (poupança necessária): 55.000€

Funchal (valor médio de venda): 354.506€

Funchal (poupança necessária): 57.000€

Porto (valor médio de venda): 394.460€

Porto (poupança necessária): 65.000€

Lisboa (valor médio de venda): 594.168€

Lisboa (poupança necessária): 104.000€

 

T4+

Beja (valor médio de venda): 161.260€

Beja (poupança necessária): 22.000€

Funchal (valor médio de venda): 505.396€

Funchal (poupança necessária): 84.000€

Faro (valor médio de venda): 516.676€

Faro (poupança necessária): 89.000€

Porto (valor médio de venda): 768.589€

Porto (poupança necessária): 134.000€

Lisboa (valor médio de venda): 922.390€

Lisboa (poupança necessária): 161.000€

 

A reter que o facto de um T0 em Beja apresentar maior valor de venda que um T1 ou um T2 se deve ao facto da oferta ser residual e, dentro dela, os imóveis serem novos, contrariamente à oferta de imóveis T2 que são, na sua maioria, de construção antiga e a necessitar de intervenção. 

Mas, também a reter, a evidência de que um T1, T2, T3 ou T4+ em Lisboa apresentarem o quíntuplo do preço das mesmas tipologias em Beja.

Se está  a pensar em comprar casa, faça contas a preços, mas também às suas poupanças.


Texto: Rita Palma Nascimento

Foto: Ana Espinho


terça-feira, 23 de março de 2021

RENDIMENTOS, TAXA DE ESFORÇO E HABITAÇÃO

 

(Em Beja, arrendar um T2 requer, em média, uma taxa de esforço superior a 52%)

O preço da habitação em Portugal volta a ser questão central, numa altura em que ter casa não é apenas uma necessidade e um direito previsto no artigo 65º da Constituição da República Portuguesa, mas também um caso de saúde pública, com que a pandemia de covid-19 nos veio confrontar.

Actulamente, serão cerca de 26 mil, as pessoas que se encontram em situação de carência habitacional. A esta realidade, poderá juntar-se uma outra, o desemprego a atingir 7,1% no quarto trimestre de 2020 (perto de meio milhão de desempregados), a quebra de rendimentos das famílias, o lay-off e, em certos casos, a suspensão absoluta da actividade económica.

Conseguir suportar as despesas com a habitação ficou, por isso, ainda mais difícil. E se, no caso do crédito, as moratórias vieram ajudar, no caso dos arrendamentos a realidade foi outra.

35% é a percentagem recomendada internacionalmente como limite máximo da taxa de esforço para a habitação familiar, valor largamente ultrapassado em Portugal.

Como exemplo, para conseguir suportar a renda de um T2, sem exceder 35% dos rendimentos anuais, em Lisboa, seria necessário que um agregado declarasse 41.349€/ano. Segundo dados do INE, a mediana dos rendimentos declarados pelos agregados é de 14.019€, o que significa que seriam necessários 23 meses de rendimentos para conseguir pagar a renda de um apartamento sem exceder a taxa de esforço.

(A título de curiosidade, no Porto, seriam necessários 15 meses).

Segundo os dados disponíveis para consulta no portal do Instituto Nacional de Estatística, dos 183 municípios a consulta, 111 apresentam declaração de rendimentos e valores de renda que obrigam a uma taxa de esforço superior a 35%. Em Beja, para que se tenha noção, o arrendamento de um T1 (valor médio sem despesas 305€) representa 42,71% e para um T2 (valor médio sem despesas 400€) a taxa sobe aos 52,81%.

Não será, por isso, de estranhar que o país se mantenha na cauda da Europa na relação entre rendimento e qualidade de vida, segundo o Eurostat.

Para melhor perceber a realidade que, em termos de preços e remuneração, é bastante variável em território continental, em média, metade dos trabalhadores por conta de outrem aufere, no máximo, 854€/mês, aos quais será necessário retirar as contribuições obrigatórias.

Analisando o preço da renda média de um T1 em Lisboa (dados do INE), seria necessário que o arrendatário auferisse 2100€/mês, para não exceder a taxa de esforço recomendada.

(Com sorte, poderá encontrar-se casa abaixo do valor do mercado, porém, poderão ficar comprometidas as condições de habitabilidade e salubridade).

Os motivos que levaram à contagiante escalada de preços na habitação em Portugal são bem conhecidos, desde 2012 a esta parte. Com o negócio a sobrepor-se às questões sociais, aumentaram os processos de “gentrificação”, os despejos, o abandono dos centros da cidade, o aumento do número de agregados a viver em habitações precárias, sendo a condição económica o factor que determina o lugar que cada um pode ocupar numa cidade.

O agravamento da realidade obrigou a que, em 2017, se assumisse que o problema iria além das recorrentes problemáticas sociais. Por demais evidente a incompatibilidade entre os preços no mercado privado e os rendimentos das famílias (onde se inclui a classe média). Desta forma, as recomendações das Nações Unidas, na altura, foram no sentido de aumentar os recursos disponíveis para o sector habitacional. Foi criada a primeira Lei de Bases da Habitação, travados processos de despejo, criados novos programas de apoio ao arrendamento e fixados limites às rendas, através da “renda social”, “renda apoiada”, “renda condicionada” e “renda acessível”. Contudo, sendo apenas 2% do parque habitacional nacional público, influenciar os preços do mercado privado é quase impossível.

Todavia, poderia a aquisição de habitação por parte do Estado, ou mesmo a adaptação e requalificação de edifícios públicos, com fim à habitação, ter resolvido algumas questões. Porém, sabemos também, que o negócio se justapôs às questões essenciais e que a venda de património público a fundos e sociedades privadas, alimentou a sede dos investidores e a especulação no mercado imobiliário, (sobretudo nas grandes cidades).

E agora? Onde é que posso morar?


Texto: Rita Palma Nascimento

Foto: João Espinho

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

#eu conto ... com Madalena Palma

 

 


"Olhar para a frente e ver. É aí que que encontro motivação, ideias e crio coisas. Seja um poema, um projeto ou uma frase para quem dela precisa."- Assim é Madalena Palma

Madalena Palma é Directora Geral da Associação Estar, mas é também, e sobretudo, aquilo que a move. Nas palavras da própria, “não sei falar de mim. É mais fácil falar sobre o que me move. E o que me move são as pegadas. Não as pegadas na areia, mas sim aquelas que deixam raízes que possam nutrir quem pelo meu caminho se cruza”.

Sobre os vários projectos que tem vindo a abraçar ao longo da vida, Madalena é objectiva, “a criação dos meus projetos, sejam eles na vida pessoal ou profissional surgem sempre que vejo uma oportunidade de melhorar. Melhorar algo ou a minha pessoa. Todos podemos ser mais e melhores e é nisso que me foco quando abraço um projeto ou uma ideia. E não largo. É, talvez por isso, inegável a minha resiliência. Não desarmo quando me foco e, enquanto não alcanço, não descanso”.

 No que à vida em seu redor diz respeito, “sinto que falta paixão nas pessoas. Estão assoberbadas com a rotina e não dão o melhor de si em nada. Isso assusta-me. Fujo disso a sete pés, porque chegar ao fim do dia e saber que fiz a diferença para melhor na vida de alguém é a melhor sensação do mundo”.

 Madalena fala-nos, enamorada, das suas inspirações, “Sísifo” poema de Miguel Torga e “a linha do horizonte, seja no mar ou num campo de sobreiros, nas casas da minha rua ou no sorriso dos meus. Olhar para a frente e ver. É aí que que encontro motivação, ideias e crio coisas. Seja um poema, um projeto ou uma frase para quem dela precisa. Houve vários momentos na minha vida em que me olhei ao espelho e nem sempre senti que estava a fazer o que deveria. Estes momentos de dúvida são sempre um momento de viragem. Neles, faço sempre alguma coisa para mudar. Já mudei tudo. Já renasci de cinzas, qual fénix.

Já abandonei uma das maiores paixões da minha vida, a rádio, para fazer algo totalmente diferente. Mas o serviço social esteve sempre em mim e curiosamente foi numa entrevista na rádio, que um dos maiores estudiosos do serviço social, Ander-Eggn, no final da entrevista, me olhou nos olhos, me segurou nas mãos e me disse para seguir a minha alma, porque tinha tudo para fazer a diferença”.

 Certo é que Madalena Palma abraça causas sociais como quem abraça pessoas, com o coração. O trabalho realizado na Associação ESTAR demonstra-o e sobre isso também falámos um pouco.

“A Associação ESTAR nasceu no sofá da minha sala, numa conversa com a Inês Féria. Estávamos no último ano do curso, nada realizadas com o que estávamos a fazer profissionalmente e a pensar no que poderíamos fazer. Queríamos criar algo nosso. O trabalho social é imensamente burocrático e não deveria ser. Devia ser mais executante. Foi aí que começámos a desenhar a ESTAR. Ocupar um lugar que antes não estava a ser ocupado, dar resposta imediata. A ESTAR, neste momento, atinge um patamar de eficácia indiscutível. Orgulhamo-nos de trabalhar verdadeiramente em rede. Orgulhamo-nos de conseguir chegar, na hora tanto, às pessoas como às instituições. Orgulhamo-nos de ser uma entidade pioneira neste campo. Não há nada no país que se assemelhe sequer ao que estamos a fazer”.

Questionada sobre a possibilidade de conseguir dar resposta a todos quantos necessitam durante a actual pandemia, Madalena desabafa “tem sido dramático. Abrimos a ESTAR a voluntários e presentemente temos connosco 32 pessoas envolvidas nos vários projetos. As nossas maiores dificuldades são financeiras.”

 Entre os projectos da Associação, encontra-se o projecto Marmita, “é um dos nossos maiores orgulhos. Temos atualmente cerca de 100 agregados a quem entregamos diariamente alimentos”. Mas não só, “a Marmita é o sentido figurado do projeto, uma vez que nem sempre são só alimentos. Podem ser mantas, cobertores, roupa, calçado, medicamentos, um frigorifico…”

A nível alimentar, “pedimos apoio a restaurantes da cidade, aos hipermercados e sensibilizámos IPSS”, diz-nos Madalena. Graças aos voluntários da Associação, as Marmitas são entregues diariamente, ao final de cada dia, às famílias referenciadas.

“No final do dia estamos exaustos, mas com a perfeita noção de que foi mais um dia em que demos tudo aquilo que pudemos.

A caminhada tem sido dura, cansativa, mas é também por isso que sabe tão bem”.



quarta-feira, 25 de novembro de 2020

#euconto ... com João Carlos Soares

 



João Carlos Soares, bejense, 41 anos – Um exemplo de reinvenção

 “Os nossos avós tiveram uma única profissão, aprenderam um ofício ao qual dedicaram toda a sua vida – sapateiros, costureiras, agricultores, vendedores… - os nossos pais, penso que a maioria, já passou por duas ou três actividades profissionais e nós, geração Y e Z, somamos diferentes experiências, díspares entre si, numa necessidade constante de reinvenção, realização e sobrevivência.”

 Deu os primeiros passos como empregado de balcão num bar de Beja (La Bodega) aos 17 anos, tendo passado pelo antigo KARAS -  “com essa idade já não era bem visto pedir-se dinheiro aos pais e a noite sempre empregou gente jovem. Tinha os fins de semana livres e podia trabalhar às sextas e sábados”.

Visionário, e aproveitando um importante nicho de mercado da altura, os estudantes universitários, aliou-se ao pai na abertura do Capa Negra – Centro de Cópias LDA.

“Beja tinha cerca de doze mil estudantes, há vinte anos atrás. Hoje em dia terá perto de três mil, se tanto. Estudava-se por sebentas e fotocópias, a internet estava a dar os primeiros passos e não existiam plataformas, portais, smartphones, ficheiros pdf, digitalizações ou pens usb. Era um mercado apetecível. Claro que com o passar dos anos e com o desenvolvimento tecnológico, foi perdendo importância. Nos dias que correm, poucos serão os estudantes que recorrem ao papel e à fotocópia. Deixou de fazer sentido. Vendemos o espaço na altura  certa e continuei a procurar o meu caminho.”

 Também ele estudante, embora colocando a actividade profissional à frente dos estudos, João Carlos Soares encerrava, aos 23 anos, o seu primeiro negócio, abrindo portas à oportunidade de experienciar a formação profissional.

“Ligaram-me um dia do Centro de Emprego com uma proposta para dar formações de inglês. Embora não tivesse concluído o curso, encontrava-me a frequentar Português- Inglês e… porque não? Na altura a formação era bem paga, cerca de 17€/hora (recibos verdes), actualmente é um mercado demasiado competitivo e, por esse motivo, menos bem pago. Foi uma experiência incrível, nada monótona. Todos os dias me deslocava para uma localidade diferente, nos arredores. Partilhava experiências e vivências com os meus colegas e formandos, mas também com as gentes das terras. Existia familiaridade e proximidade, um sentimento de pertença. Infelizmente vi-me forçado colocar um ponto final nesta actividade devido a um problema de saúde, que me levou a cancelar formações durante algum tempo.”

 João Carlos Soares, sentia, uma vez mais, a necessidade de se reinventar e concorreu a uma vaga para administrativo no Centro de Radiologia de Beja, onde se mantém desde então, já lá vão doze anos. Todavia, nunca abdicou dos seus hobbies de fim-de-semana e continuou a trabalhar em bares e discotecas.

“O avançar da idade foi-me retirando a disponibilidade anímica para o ambiente nocturno, mas não podia abdicar desse extra, então juntei-me ao Nuno Curro, na sua empresa Cocktail Mix Evetos e dei início à realização de eventos, desde os corporativos, aos cocktails e festas sociais, passando pelos baptizados e casamentos. Esta experiência permitiu-me uma maior abertura de portas, tendo surgido um convite irrecusável por parte do Clube Praia Verde, no Algarve – a realização de quarenta casamentos, após ter colaborado com eles em algumas festas de verão.”

 João Carlos Soares abraçava agora outros voos. Porém…

“Este ano (2020) seria o meu melhor ano, tinha cerca de sessenta eventos em agenda, fora aqueles que podem ir surgindo, entre casamentos, festas de verão e outros eventos privados. As empresas de eventos, ao contrário do que se pensa, trabalham doze meses por ano, seis meses a programar e seis a realizar. O trabalho de programação estava terminado, quando em Março fomos surpreendidos pela Covid-19. Toda a nossa programação foi cancelada e até à data zero eventos se realizaram. A quebra é de 100%.”

 E agora?

“Quando nos juntamos com amigos a beber uma imperial, podem surgir boas ou más ideias. Mas as boas deverão sempre ser tidas em conta, principalmente quando culminam na criação de um negócio.”

 O sol já descia no horizonte e o dever familiar marcava a hora.

“Temos que ir andando, fazer o jantar. É sempre uma chatice, os miúdos não gostam, a mulher está de dieta… o ideal seria ter embalagens diferentes no congelador e cada um escolhia aquilo que lhe apetecesse no momento. Os maridos jantam sempre (risos).”

Nascia assim o conceito da mais recente aventura do João, do Francisco e do Luís -  O Aqui Não Comes, uma casa de venda de comida tradicional e caseira ultracongelada, em doses individuais, cujo propósito consiste em facilitar a vida das famílias modernas.

“Inicialmente não fomos muito crentes na ideia. Ultra congelar açorda de gambas, favas com entrecostos, cabidela, cozido de grão (entre quarente e seis outros pratos) faria sentido em Beja? Ultrapassariam os bejenses o estigma da comida congelada? Entenderiam eles o conceito? Em Lisboa faria todo o sentido, em Beja era preciso arriscar. E arriscámos. Abrimos há quatro meses, temos uma ementa de cinquenta pratos e cada um cozinha os seus. Adquirimos um abatedor de temperatura, as arcas e arrendámos um espaço e a experiência tem sido surpreendente. Efectivamente ninguém chega a casa depois das nove da noite com disponibilidade para fazer um arroz de pato, da mesma forma que ninguém confeccionará um cozido de grão para uma só pessoa. E nós temos essa solução. Basta retirar a embalagem desejada do congelador e degustar.”

 Questionado sobre o porquê da aposta num negócio na área da restauração em plena crise económica, João Carlos responde com uma interrogação:

“Se já tinha trabalhado em bares, já tinha tido uma casa de fotocópias, já tinha dado formação, já trabalhava como administrativo e já realizava eventos diversos, porque é que não haveria de experimentar ser cozinheiro?”

Como planos para alavancar o recente negócio, falou-nos da assinatura de contrato para abertura de um espaço em Lisboa e da possibilidade de expansão para outras área geográficas. “Ao fim de dois meses de abrimos portas em Beja, fomos abordados por um empresário da cidade a residir em Lisboa, sobre a possibilidade de levar o negócio para a capital, onde se crê fazer todo o sentido. Desta forma iremos abrir no Campo Pequeno, já no início de 2021 pelas mãos da Margarida e da Rita. No horizonte estão, eventualmente, outras localidades como Setúbal e Faro. As máquinas de venda automática poderão vir a ser equacionadas em pontos estratégicos, como grandes empresas, por considerarmos que faz todo o sentido ter disponível e sempre à mão, uma selecção de pratos tradicionais e caseiros, prontos a satisfazer as horas de refeição. Para Beja os planos passam pela criação de postos de trabalho a curto prazo.”

Sobre o actual momento que o país, a Europa e o mundo atravessam, João Carlos Soares não esconde preocupação e a inquietação face às incongruências.

“Não podemos falar em justiça social quando há sectores mais penalizados do que outros. No sector da restauração, por exemplo, tal como no sector cultural, os apoios são insuficientes, ou inexistentes. Estamos a caminhar para um beco sem saída e hipotecar o futuro. Não só o futuro das empresas, como o nosso futuro e o futuro dos nossos filhos. Quando tudo for nada, o que é que resta? Felizmente a comunidade bejense tem respondido de forma exemplar ao movimento de união a favor do comércio tradicional e da restauração. São eles que fazem funcionar, é a proximidade, a familiaridade, a envolvência e partilha. Têm sido um apoio fundamental e o nosso suporte. Contudo, também os nossos clientes atravessam tempos difíceis e ser-lhes-á impossível continuar a recorrer de forma sistemática aos nossos serviços. Creio que antes de pedirmos mais sacrifícios a quem já muito se sacrifica, se ponderasse a redução do pagamento de IVA por parte das empresas, se colocasse um ponto final na TSU e fossem repostos os horários da restauração e do comércio local. Nenhum de nós tem interesse em que o vizinho feche portas e esta tem que ser uma luta conjunta, de todos por todos. E neste sentido quero deixar a todos os empresários uma mensagem de força, de esperança e coragem.”




quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Conversamos com Ana Carla Faísco

 

A Ana é arquitecta de profissão a trabalhar actualmente na Câmara Municipal de Serpa. Enquanto jovem que saiu de Beja para adquirir competências profissionais, a exemplo de tantos outros, e foi estudar para o Porto, tendo posteriormente regressado a Beja.

Quer estabelecer-nos um paralelo entre o ir e o voltar e as razões inerentes?

O apelo que senti para estudar arquitetura veio naturalmente acompanhado da decisão de sair de Beja e do Alentejo. Na altura as escolas públicas de renome eram as de Lisboa e Porto e a minha candidatura acabou por “calhar”na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. Apesar de todos os meus amigos terem optado por Lisboa e Algarve (o que me deixou na altura bastante receosa e triste), o Porto acabou por se revelar uma cidade incrível que guardo com muito carinho no coração… também assim aprendi que o desafio de viver em locais completamente estranhos nos traz tantas oportunidades e o que importa é estarmos de mente e coração abertos e com certeza encontramos pessoas e locais com que nos identificamos e criamos mais e mais memórias… ganhamos “mundo”! A dada altura surge no programa curricular o estágio que podia ser desenvolvido em qualquer local do país, e aí o Alentejo falou mais alto… não me foi aliciante ir trabalhar para um grande atelier de arquitetos no Porto (e tantos que havia!) mas senti uma vontade de aplicar o que aprendi na região de onde sou natural. Colocar-me ao serviço público foi na altura uma opção consciente mas que muitos dos meus colegas não compreenderam. Para mim fazia todo o sentido, sempre me interessei mais pela arquitetura vernacular do que a monumental, perceber como as pessoas viviam na suas casas, que necessidades tinham e como encontraram as soluções… também o desafio de desenhar espaço público e contribuir para o bem-estar de uma população. E lembro também em férias de vir a Beja e andar pelas ruas com a cabeça levantada para olhar os edifícios de alto a baixo, ruas que conheci toda a vida mas agora ganhavam outros significados! Quis perceber melhor o meu Alentejo e também não queria ser mais um número na trágica estatística dos jovens que abandonam esta região, ainda por cima na minha área havia nessa altura um déficit de arquitetos que me permitia ter trabalho… e assim surgiram contatos com a câmara municipal de Serpa, que me acolheu em estágio durante o ano letivo em 1999/2000. E após 17 anos e muitos outros desafios profissionais, sempre em autarquias, eis que numa feliz coincidência regresso a Serpa… vivo em Beja e desenvolvo uma atividade privada em Alcaria da Serra (Vidigueira), é uma triangulação na qual me sinto muito feliz e finalmente consegui juntar a família, o amor e a realização profissional!

No decurso do seu percurso profissional sentiu a necessidade de alargar o âmbito da sua actividade a uma área que embora estando relacionada com a sua formação académica, se reveste de características completamente diferentes.

A Mosaicos d’Alcaria nasceu dessa sua necessidade/inquietação.

Quer falar-nos um pouco deste seu projecto?

Sou arquiteta e desde há muito apaixonada pelos mosaicos hidráulicos: cimento colorido de cores vibrantes e que de forma tão genuína decoravam o chão das casas do Alentejo. Quando em 2012 comprei uma casa antiga para reabilitar, tive muita dificuldade em encontrar soluções em Portugal, que não exigissem deslocação à fábrica e com poucas garantias de prazos de entrega. Porque não tornar uma paixão numa forma de vida, que ainda por cima eleva a tradição e o design português? Senti este apelo de me lançar numa aventura rumo à libertação artística e criativa, contribuindo ainda para o fortalecimento da nossa identidade cultural. No final de 2013 nasceu a marca Mosaicos d'Alcaria, impulsionada pelo concurso de empreendedorismo da Associação Acredita Portugal, que de entre mais de 14.000 projetos, premiou a ideia como uma das 150 semifinalistas e para mim, acabou por ser uma verdadeira plataforma de formação online, que me obrigou a pensar a sério nesta ideia que me perseguia há uns anos! Estruturar objetivos, procurar e estudar a concorrência, definir estratégias de marketing, planear e implementar estudos de mercado, pensar em protótipos para testar a adesão ao produto. O local escolhido para sediar o Atelier foi a casa dos meus avós maternos, também eles em tempos empresários com “venda” e “loja” (taberna e mercearia), em Alcaria da Serra, linda aldeia do concelho da Vidigueira. A experiência tem sido ótima e esta casa é um sítio com uma energia incrível… os mosaicos parecem pertencer-lhe desde sempre! Os clientes visitam um atelier na aldeia, familiar, autêntico e esteticamente apelativo. Num futuro próximo a casa terá também alojamento turístico para visitantes da aldeia, ou para os participantes dos workshops que o Atelier tem intenção de promover, potenciando os recursos endógenos desta característica aldeia do Alentejo. Nos Mosaicos d’Alcaria os sonhos dos clientes ganham vida através da assessoria técnica com simulações e desenhos de infinitos padrões e combinação de cores para revestimento de chão ou paredes, mas não tratamos o mosaico hidráulico como um simples material de construção... está associado a lifestyle e aos conceitos de bem-estar e contemporaneidade. Acredito que o mosaico hidráulico é um produto que vem do passado mas é do futuro, garantia de durabilidade, identidade e decoração únicas.

Para desenvolver qualquer actividade criativa, seja ela um projecto de arquitectura, seja o desenho de um mosaico, é necessário um certo ambiente de paz e tranquilidade.

Concorda?

Sem dúvida! Penso contudo que esta procura se reveste de diferentes características de pessoa para pessoa, o que é verdadeiramente importante é a tranquilidade interior que nos permite que o pensamento criativo cresça e nos direcione para outras atividades que não as tarefas normais do dia-a-dia.

Considera que se vivesse num grande centro populacional lhe seria mais difícil ter momentos de inspiração com a mesma qualidade? Porquê?

É uma questão aparentemente fácil de responder, mas… para quem já teve experiências de vida em grandes centros urbanos, sabe que há uma variedade de ofertas que não temos acesso na nossa região. São também elas inspirações que vamos absorvendo e que depois são importantes no processo criativo que desenvolvemos nos tais ambientes mas calmos e tranquilos. Considero sinceramente que o ideal é viver em família neste Alentejo em que o tempo corre de outra forma, e sempre que possível, dar umas “escapadinhas” a cidades frenéticas e estimulantes… é um equilíbrio necessário, só paz e sossego deixa-nos demasiado confortáveis e a inquietação do espírito é importante!

A Ana é uma pequena empresária que arriscou mas cujo reconhecimento é já evidente. Os seus mosaicos viajam pelo país, estão presentes em inúmeros espaços, compõem armários de recordações de muitas pessoas de renome, e são um património seu e da região, que desta forma é amplamente divulgada.

Da imensidão de mosaicos que tem feito, quer destacar-nos algumas peças que considere mais especiais? Qual o significado que têm para si?

A dada altura senti que os mosaicos hidráulicos não são só um material de construção, daí que a ideia empresarial inicial da fábrica de mosaicos se tenha ajustado ao longo destes 5 anos e é agora o Atelier de mosaico hidráulico “Mosaicos d’Alcaria… casas com Alma!”. Rapidamente me apercebi nas feiras e exposições onde participei que as pessoas tinham uma ligação afetiva a estes quadrados de cimento colorido 20x20cm das casas do sul… as memórias da casa dos avós, a casa na aldeia onde cresceram… e comecei a olhar para eles de forma individual e a levantá-los do chão para que pudessem de novo ir para dentro das casas das pessoas como um símbolo das suas memórias. O Atelier tem vindo a afirmar-se na área decorativa, integrando os mosaicos em peças utilitárias para a casa (quadros, descanso de tachos, tábuas de queijo, mesas, cabides) com ou sem gravações de texto e imagens. O assumir do Atelier vs Fábrica teve um impacto bastante positivo na evolução da empresa, tendo sido lançado um novo serviço de criação de painéis de arte urbana, do qual destaco uma rotunda na baía do Seixal que me deixa bastante orgulhosa, cujo promotor foi a câmara municipal, um conjunto escultórico composto por um muro revestido a mosaicos gravados e de padrão alusivos ao tema “Seixal Saudável”, complementado por uma estrutura em ferro de 5 metros que retrata os moldes com que são feitos os mosaicos hidráulicos. Também os mosaicos individuais gravados têm aumentado a procura, são ofertas com fotografias e composições gráficas de texto e imagens que se misturam nos padrões coloridos e surpreendem sempre quem os recebe. Familiares na época natalícia, comemorações de aniversários e casamentos, eventos culturais, ofertas de grupos corais e entidades coletivas diversas… e muitas personalidades nacionais também já foram “mosaicados”! - Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa, Cristina Ferreira, Tim, João Gil, Vitorino ou Pedro Abrunhosa.

Em termos de mercado e divulgação do seu trabalho enquanto artesã dos Mosaicos d’Alcaria, sente algum tipo de constrangimento por estar numa área geográfica interior e distante dos grandes centros?

Não é uma logística fácil, mas as atuais ferramentas tecnológicas permitem a flexibilidade necessária no contato com os clientes... é no entanto inegável que as deficientes infraestruturas de transportes, públicos e privados, criam um distanciamento físico que impede o acesso facilitado ao Atelier. Por algumas vezes sou abordada por potenciais clientes que perguntam se não tenho pontos de venda em Lisboa ou noutros locais mais próximos… não é esta a nossa estratégia comercial, gosto de manter os mosaicos neste ambiente familiar e tranquilo de uma aldeia no Alentejo, dar a conhecer o nosso território a quem vem à procura dos mosaicos. Saem de Alcaria com um belo pão alentejano cozido em forno de lenha e um almoço de panela servido no café do lado. Todos os dias nos confrontamos com dificuldades nas nossas vidas e percursos profissionais, mas esta região é o nosso berço e mantenho a esperança de que o país nos trate com a dignidade que merecemos. O Baixo Alentejo é uma região com grande potencial patrimonial e humano que está permanentemente expectante de investimentos estruturantes que nos dêem o suporte para um desenvolvimento que com certeza saberemos promover. Não nos falta criatividade, paixão e vontade de gritar Alentejo!

 “Alentejo… um abraço que nos une, um sorriso que ilumina, um sonho a realizar…”

Como é que a sua alma artística define esta frase?

Respondo com uma quadra popular presente no cante alentejano e que expressa o meu sentimento por esta região. Apesar das dificuldades, o Alentejo mantém uma orgulhosa alma que nos cativa a cada passeio e a cada pôr-do-sol dolente, um consolo que não se esquece:

“Alentejo é qualquer coisa

Que trago dentro de mim

Onde o meu pensar poisa

Um amor que não tem fim.”



 

domingo, 15 de novembro de 2020

"Arte, Cidades, Alma - A Conexão como Alavanca"

“Onde nós nos ouvimos por dentro é casa também.” – As palavras de Pedro Abrunhosa que deram início à conferência Arte, Cidades, Alma – A Conexão como Alavanca.

Por ser urgente pensar as cidades, a arte, a alma, o património e as gentes, assim como perceber e debater a sua conexão e interligação, enquanto contributo para a alavancagem e construção do novo - entenda-se, futuro – sem deixar de questionar o modo como poderemos avançar, mudar paradigmas e corrigir lacunas sem que se coloque em causa a herança que nos foi sendo doada ao longo dos tempos, convidámos no passado dia 31 de Outubro, Pedro Abrunhosa, Bruno Ferreira e Paulo Barriga para uma tarde de reflexão conjunta no auditório do Centro Unesco, em Beja.

Desafiado a conceber um paralelismo entre versos de Mário Beirão e a presente realidade, Pedro Abrunhosa colocou-nos perante aquilo que, no seu entender, nos resta depois de tudo, o futuro e a luta permanente para que a existência encontre o seu sentido. “A Liberdade, o livre arbítrio, a construção do presente rumo ao futuro”, no sentido em que a estruturação de qualquer sociedade se iniciará sempre no presente, numa óptica de continuidade, resiliência e concepção de um tempo futuro, no qual o homem de hoje já não viverá.

Por esse motivo, afirmou Paulo Barriga, que uma cidade é composta por finas camadas históricas sobrepostas, “uma caixa de ressonância dos tempos passados”, onde a “impossibilidade material da cidade” converge no encontro do património edificado “com o acto cultural e a vivência”.  Desta forma, será “a ligação entre as pessoas, as políticas culturais, o passado de mil folhas sobrepostas (passado arquitectónico, urbanístico e arqueológico) quem transforma a cultura numa Obra”, a qual se designa cidade.

No entendimento de Bruno Ferreira, “o indivíduo, enquanto ser único, desenvolve-se num ambiente multicultural, com regras, padrões, crenças, o que transforma a cultura num processo de intercâmbio entre diversos indivíduos e comunidades, formando assim uma sociedade”. “A cidade é um jardim, cujas flores somos nós próprios, os cidadãos” e nessa perspetiva, será sempre necessária a existência de um “jardineiro dedicado” – referindo-se ao poder local - e artistas “que não sendo flores, são as abelhas que as polinizam, permitindo que sorriam”.

Num encadeamento de ideias, Pedro Abrunhosa propôs-nos reflectir sobre a visão de Platão de que nenhum homem se basta a si mesmo e sobre a possibilidade de “duas pessoas formarem uma cidade”. “Onde existem dois, existe uma relação de reciprocidade e a possibilidade de o acto de um interferir na liberdade do outro”- abordando com clareza a ideia Platónica da construção da cidade justa, uma Cidade-Estado que assumiria todos os valores morais, erguendo-se como a única forma de sociedade possível, segundo uma política que o filósofo definia como “arte que cura a alma e a torna o mais virtuosa possível”.

Pedro Abrunhosa desenvolve a temática: “Alma não é um conceito religioso. É um conceito orgânico. Fazem parte do homem o corpo e a alma que o habita”. “A cidade tem alma, porque é animada pelas pessoas, muito mais do que pela arquitectura. É a alma que caracteriza o local e o torna identitário. E a política é a arte do possível, a arte de gerir as vontades de toda a gente”. E sobre arte, “é tudo o que nos retira de um local, para nos levar para outro local diferente, que não tem que ser bonito. A arte não tem que ser bonita. Tem que nos transportar de um tempo para outro. É, talvez a par do conceito de Deus, a maior criação da humanidade”.

Já a “política é a gestão do dia a dia” e “aquilo a que hoje se assiste um pouco por toda a Europa é ao desaparecimento de cidades que outrora já se assumiram como grandes potências históricas, Beja é uma delas”. “As cidades perdem habitantes, massa crítica, artistas, perdem o público desses artistas, perdem quem ensina e quem aprende”, continuou Bruno Ferreira, frisando o quão importante é o papel dos cidadãos na manutenção das suas cidades e no grau de exigência para com os poderes executivos. “Seria interessante retornar ao Ágora, enquanto espaço livre de encontro e discussão” entre cultura e política, expressão máxima da esfera pública.

Concordando com a observação, Pedro Abrunhosa abordou o fenómeno das redes sociais que “fomentam o afastamento social e não a agregação social”, estabelecendo uma analogia com as palavras de Paulo Barriga, ao constatar que se assiste a uma (re)tribalização - um afastamento social premeditado, como se de tribos se tratasse, no maior retrocesso humano possível, em que os elementos de um mesmo grupo se reconhecem por características, ideias e ideais comuns, excluindo ou mantando os seus dissemelhantes. Segundo Pedro Abrunhosa, “as redes sociais só servem para gostar daquilo que já gostávamos, porque o algoritmo nos mostra aquilo que já conhecemos. A muralha à nossa volta revela-se ainda maior, porque deixamos de ter a percepção de que o outro existe. A incompreensão e a intolerância polarizam as pessoas, afastando-as cada vez mais”.

Já na recta final, e em opinião unânime, os elementos do painel defenderam que “é na cultura que os portugueses encontram razão para sustentar a sua autoestima”, tendo Pedro Abrunhosa definindo cultura como “tudo aquilo que necessita da mão do homem para existir. É o grande suporte do combate à ignorância”. E define-nos, tal como “o plástico define o século XX, porque isso também é cultura”.

Por seu lado, a arte acontece “quando pensamos em coisas que já não conseguimos colocar por palavras e nos silenciamos. Um silêncio de espanto perante uma Obra. Nenhuma língua traduz ou reproduz a emoção sentida, nem nunca será capaz de a explicar. Só explicam a arte, o silêncio e o espanto, sendo a arte o sítio para onde a linguagem escoa através do pensamento, do acto e da produção”.

 

Arte, Cidades, Alma – Aquilo que nos conecta.

Artigo de Rita Palma Nascimento



sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Conversamos com Buba Espinho

 

“Alentejo … um abraço que nos une, um sorriso que ilumina, um sonho a realizar …”

Sabemos que o Buba Espinho tem raízes profundamente alentejanas, tendo começado o seu percurso artístico através do cante. Que reflexão lhe suscita a frase?

Comecei no Cante Alentejano e oiço-o desde que me lembro. As minhas primeiras memórias musicais são de homens a cantar, de ver o meu pai a cantar em palcos, pelo que desde muito pequeno que sinto que o Alentejo se entranhou em mim na forma de Cante. A frase “… um abraço que nos une” remete-me para um universo comum entre Alentejanos, onde há sempre alguma coisa que nos une, e o Cante é, também, uma forma de união, porque qualquer Moda que se cante é sempre um bom pretexto para fazer novos amigos no Alentejo. E esta é a reflexão que faço, o Alentejo é, de facto, algo que nos liga uns aos outros, sejamos nós do Alto ou do Baixo. 

Sendo um jovem artista, que como muitos outros foi obrigado a partir na busca da concretização do sonho, como vê o actual momento cultural na região e que comentário lhe suscita a nomeação de artistas Bejenses para prémios de renome?

Não só os artistas de Beja, como a Arte em geral em Beja, têm imenso valor, porque aqui é possível criar sem qualquer pressão artística. E quando falo em pressão artística falo no profissionalismo das coisas. Nós fazemo-lo por amor e o amor é genuíno, essa diferença é notória. Todos os artistas Alentejanos que conheço, são grandes artistas por isso mesmo, porque acima de tudo têm imenso amor por aquilo que fazem. Sendo, por isso, normal que existam nomeações para Prémios, aqui, no Alentejo, existe realmente muita qualidade, tanto a nível musical, como no teatro (temos excelente actores)… como em tudo o que encerre arte. No Alentejo há muita gente a fazer coisas muito boas.

Quais são, na sua opinião, os principais factores determinantes na fixação de pessoas na região? É possível reverter a tendência da “partida”?

Uma excelente pergunta. Falando pela minha experiência, a partir do momento em que tomei como decisão de assumir uma carreira a solo, seria impossível fazê-lo em Beja, pelas dimensões reduzidas do mercado e pela falta de oportunidades (há muita coisa por fazer). Então, foi necessário dedicar-me à conquista de outros mercados, de outros públicos. A fixação é sempre uma questão difícil, porque dependerá sempre  de muitos factores. Em primeiro lugar depende do povo, das pessoas, do aprender a gostar daquilo que se faz por cá. Temos o exemplo do comércio tradicional que tem, ao longo dos tempos, sido trocado pelos centros comerciais e grandes superfícies, o que leva a que também os comerciantes locais não se consigam fixar, ou não consigam garantir a sua fiação. Na música é igual. Eu trabalho sobretudo em Casas de Fado, em Beja não existe nenhuma Casa de Fado, logo aí eu não conseguiria fazer a minha vida enquanto fadista em Beja.
Mas as coisas estão a mudar, para melhor, neste momento já existe Cante nas escolas, o que confere aos jovens uma certa responsabilidade sobre o seu património cultural. São cerca de 5 milhares de jovens nesta aprendizagem, o que é muito bom, significa que daqui por 20 anos, em 5 mil, existirão muitos a querer seguir pelo meio artístico. Nessa atura, penso que já se conseguirão fixar, uma vez que tudo depende da aprendizagem da cultura, e é necessário ensinarmos e habituarmos as nossas pessoas a gostarem da cultura. Se os jovens já estão a aprender desde tão cedo o que é essa nossa cultura, o que é a nossa música, o que é a nossa expressão, quando forem mais velhos isso será, para eles, algo natural e intrínseco, o que lhes permitirá fixarem-se na sua terra e fazer nela aquilo que mais gostam.  

Pensando em Beja como pólo de atracção, quer de investidores, quer de particulares das mais variadas áreas, se lhe fosse permitido tomar uma decisão executiva a favor da cultura, que pudesse influenciar, qual seria e porquê?

Claro como é óbvio. Regressar é sempre o sonho de qualquer um. Eu venho cá imensas vezes, talvez não tantas como gostaria, nem por tanto tempo como gostaria, o dever chama-me e o meu trabalho é lá em cima, mas o meu sonho é um dia voltar e criar cá a minha família, a minha própria família, porque família eu tenho cá e é ate é bastante grande. São eles quem me faz vir inúmeras vezes. Mas claro, o meu objectivo é alcançar a estabilidade para um dia poder voltar às minhas raízes.

No que toca à minha arte e aos meus géneros musicais, penso que ainda há muita coisa por fazer. Como referi há


pouco, o projecto do Cante nas Escolas foi uma excelente iniciativa, que trará imensos frutos no futuro, mas são necessárias muitas mais. Estou a lembrar-me de uma ideia do Jorge Benvinda, a Casa de Cante, que na altura em que o mesmo foi reconhecido como Património da Humanidade, profissionalizou um pouco mais o Cante, tendo criado 3 dias por semana a possibilidade de as pessoas assistirem a concertos de Cante Alentejano. Apenas e só a Cante Alentejano. Porque o que acontece, hoje em dia, é que o Cante é colocado em todo o lado. Há uma feira numa qualquer localidade e é possível ouvir cante, seja ela uma feira gastronómica, uma feira de vinhos ou de roupa. E o Cante é um género muito específico e que deve ser colocado em determinados locais com qualidade, para que os apreciadores possam apenas ouvir Cante Alentejano. De forma muito similar ao Fado, quem gosta de fado não vai a uma Casa de Fado apenas para jantar, vai para jantar e ouvir Fado. Então, na minha opinião, seria de interesse criarem-se as Casas de Cante em Beja, para possibilitar a quem gosta, a oportunidade de jantar e ouvir. Actualmente, na cidade, é pouco provável ouvir-se Cante, encontra-se um grupo de rapazes na rua a cantar, mas não se fica uma noite a ouvi-los. A criação destas Casas permitiria profissionalizar o Cante e conferir-lhe o valor que realmente tem enquanto Património da Humanidade.



A Palavra à Equipa - Maximiano Ferreira

"A essência da mediação imobiliária difere dos grandes centros urbanos para os pequenos. Vindo de uma grande capital e chegado a uma pe...