quarta-feira, 25 de novembro de 2020

#euconto ... com João Carlos Soares

 



João Carlos Soares, bejense, 41 anos – Um exemplo de reinvenção

 “Os nossos avós tiveram uma única profissão, aprenderam um ofício ao qual dedicaram toda a sua vida – sapateiros, costureiras, agricultores, vendedores… - os nossos pais, penso que a maioria, já passou por duas ou três actividades profissionais e nós, geração Y e Z, somamos diferentes experiências, díspares entre si, numa necessidade constante de reinvenção, realização e sobrevivência.”

 Deu os primeiros passos como empregado de balcão num bar de Beja (La Bodega) aos 17 anos, tendo passado pelo antigo KARAS -  “com essa idade já não era bem visto pedir-se dinheiro aos pais e a noite sempre empregou gente jovem. Tinha os fins de semana livres e podia trabalhar às sextas e sábados”.

Visionário, e aproveitando um importante nicho de mercado da altura, os estudantes universitários, aliou-se ao pai na abertura do Capa Negra – Centro de Cópias LDA.

“Beja tinha cerca de doze mil estudantes, há vinte anos atrás. Hoje em dia terá perto de três mil, se tanto. Estudava-se por sebentas e fotocópias, a internet estava a dar os primeiros passos e não existiam plataformas, portais, smartphones, ficheiros pdf, digitalizações ou pens usb. Era um mercado apetecível. Claro que com o passar dos anos e com o desenvolvimento tecnológico, foi perdendo importância. Nos dias que correm, poucos serão os estudantes que recorrem ao papel e à fotocópia. Deixou de fazer sentido. Vendemos o espaço na altura  certa e continuei a procurar o meu caminho.”

 Também ele estudante, embora colocando a actividade profissional à frente dos estudos, João Carlos Soares encerrava, aos 23 anos, o seu primeiro negócio, abrindo portas à oportunidade de experienciar a formação profissional.

“Ligaram-me um dia do Centro de Emprego com uma proposta para dar formações de inglês. Embora não tivesse concluído o curso, encontrava-me a frequentar Português- Inglês e… porque não? Na altura a formação era bem paga, cerca de 17€/hora (recibos verdes), actualmente é um mercado demasiado competitivo e, por esse motivo, menos bem pago. Foi uma experiência incrível, nada monótona. Todos os dias me deslocava para uma localidade diferente, nos arredores. Partilhava experiências e vivências com os meus colegas e formandos, mas também com as gentes das terras. Existia familiaridade e proximidade, um sentimento de pertença. Infelizmente vi-me forçado colocar um ponto final nesta actividade devido a um problema de saúde, que me levou a cancelar formações durante algum tempo.”

 João Carlos Soares, sentia, uma vez mais, a necessidade de se reinventar e concorreu a uma vaga para administrativo no Centro de Radiologia de Beja, onde se mantém desde então, já lá vão doze anos. Todavia, nunca abdicou dos seus hobbies de fim-de-semana e continuou a trabalhar em bares e discotecas.

“O avançar da idade foi-me retirando a disponibilidade anímica para o ambiente nocturno, mas não podia abdicar desse extra, então juntei-me ao Nuno Curro, na sua empresa Cocktail Mix Evetos e dei início à realização de eventos, desde os corporativos, aos cocktails e festas sociais, passando pelos baptizados e casamentos. Esta experiência permitiu-me uma maior abertura de portas, tendo surgido um convite irrecusável por parte do Clube Praia Verde, no Algarve – a realização de quarenta casamentos, após ter colaborado com eles em algumas festas de verão.”

 João Carlos Soares abraçava agora outros voos. Porém…

“Este ano (2020) seria o meu melhor ano, tinha cerca de sessenta eventos em agenda, fora aqueles que podem ir surgindo, entre casamentos, festas de verão e outros eventos privados. As empresas de eventos, ao contrário do que se pensa, trabalham doze meses por ano, seis meses a programar e seis a realizar. O trabalho de programação estava terminado, quando em Março fomos surpreendidos pela Covid-19. Toda a nossa programação foi cancelada e até à data zero eventos se realizaram. A quebra é de 100%.”

 E agora?

“Quando nos juntamos com amigos a beber uma imperial, podem surgir boas ou más ideias. Mas as boas deverão sempre ser tidas em conta, principalmente quando culminam na criação de um negócio.”

 O sol já descia no horizonte e o dever familiar marcava a hora.

“Temos que ir andando, fazer o jantar. É sempre uma chatice, os miúdos não gostam, a mulher está de dieta… o ideal seria ter embalagens diferentes no congelador e cada um escolhia aquilo que lhe apetecesse no momento. Os maridos jantam sempre (risos).”

Nascia assim o conceito da mais recente aventura do João, do Francisco e do Luís -  O Aqui Não Comes, uma casa de venda de comida tradicional e caseira ultracongelada, em doses individuais, cujo propósito consiste em facilitar a vida das famílias modernas.

“Inicialmente não fomos muito crentes na ideia. Ultra congelar açorda de gambas, favas com entrecostos, cabidela, cozido de grão (entre quarente e seis outros pratos) faria sentido em Beja? Ultrapassariam os bejenses o estigma da comida congelada? Entenderiam eles o conceito? Em Lisboa faria todo o sentido, em Beja era preciso arriscar. E arriscámos. Abrimos há quatro meses, temos uma ementa de cinquenta pratos e cada um cozinha os seus. Adquirimos um abatedor de temperatura, as arcas e arrendámos um espaço e a experiência tem sido surpreendente. Efectivamente ninguém chega a casa depois das nove da noite com disponibilidade para fazer um arroz de pato, da mesma forma que ninguém confeccionará um cozido de grão para uma só pessoa. E nós temos essa solução. Basta retirar a embalagem desejada do congelador e degustar.”

 Questionado sobre o porquê da aposta num negócio na área da restauração em plena crise económica, João Carlos responde com uma interrogação:

“Se já tinha trabalhado em bares, já tinha tido uma casa de fotocópias, já tinha dado formação, já trabalhava como administrativo e já realizava eventos diversos, porque é que não haveria de experimentar ser cozinheiro?”

Como planos para alavancar o recente negócio, falou-nos da assinatura de contrato para abertura de um espaço em Lisboa e da possibilidade de expansão para outras área geográficas. “Ao fim de dois meses de abrimos portas em Beja, fomos abordados por um empresário da cidade a residir em Lisboa, sobre a possibilidade de levar o negócio para a capital, onde se crê fazer todo o sentido. Desta forma iremos abrir no Campo Pequeno, já no início de 2021 pelas mãos da Margarida e da Rita. No horizonte estão, eventualmente, outras localidades como Setúbal e Faro. As máquinas de venda automática poderão vir a ser equacionadas em pontos estratégicos, como grandes empresas, por considerarmos que faz todo o sentido ter disponível e sempre à mão, uma selecção de pratos tradicionais e caseiros, prontos a satisfazer as horas de refeição. Para Beja os planos passam pela criação de postos de trabalho a curto prazo.”

Sobre o actual momento que o país, a Europa e o mundo atravessam, João Carlos Soares não esconde preocupação e a inquietação face às incongruências.

“Não podemos falar em justiça social quando há sectores mais penalizados do que outros. No sector da restauração, por exemplo, tal como no sector cultural, os apoios são insuficientes, ou inexistentes. Estamos a caminhar para um beco sem saída e hipotecar o futuro. Não só o futuro das empresas, como o nosso futuro e o futuro dos nossos filhos. Quando tudo for nada, o que é que resta? Felizmente a comunidade bejense tem respondido de forma exemplar ao movimento de união a favor do comércio tradicional e da restauração. São eles que fazem funcionar, é a proximidade, a familiaridade, a envolvência e partilha. Têm sido um apoio fundamental e o nosso suporte. Contudo, também os nossos clientes atravessam tempos difíceis e ser-lhes-á impossível continuar a recorrer de forma sistemática aos nossos serviços. Creio que antes de pedirmos mais sacrifícios a quem já muito se sacrifica, se ponderasse a redução do pagamento de IVA por parte das empresas, se colocasse um ponto final na TSU e fossem repostos os horários da restauração e do comércio local. Nenhum de nós tem interesse em que o vizinho feche portas e esta tem que ser uma luta conjunta, de todos por todos. E neste sentido quero deixar a todos os empresários uma mensagem de força, de esperança e coragem.”




quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Conversamos com Ana Carla Faísco

 

A Ana é arquitecta de profissão a trabalhar actualmente na Câmara Municipal de Serpa. Enquanto jovem que saiu de Beja para adquirir competências profissionais, a exemplo de tantos outros, e foi estudar para o Porto, tendo posteriormente regressado a Beja.

Quer estabelecer-nos um paralelo entre o ir e o voltar e as razões inerentes?

O apelo que senti para estudar arquitetura veio naturalmente acompanhado da decisão de sair de Beja e do Alentejo. Na altura as escolas públicas de renome eram as de Lisboa e Porto e a minha candidatura acabou por “calhar”na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. Apesar de todos os meus amigos terem optado por Lisboa e Algarve (o que me deixou na altura bastante receosa e triste), o Porto acabou por se revelar uma cidade incrível que guardo com muito carinho no coração… também assim aprendi que o desafio de viver em locais completamente estranhos nos traz tantas oportunidades e o que importa é estarmos de mente e coração abertos e com certeza encontramos pessoas e locais com que nos identificamos e criamos mais e mais memórias… ganhamos “mundo”! A dada altura surge no programa curricular o estágio que podia ser desenvolvido em qualquer local do país, e aí o Alentejo falou mais alto… não me foi aliciante ir trabalhar para um grande atelier de arquitetos no Porto (e tantos que havia!) mas senti uma vontade de aplicar o que aprendi na região de onde sou natural. Colocar-me ao serviço público foi na altura uma opção consciente mas que muitos dos meus colegas não compreenderam. Para mim fazia todo o sentido, sempre me interessei mais pela arquitetura vernacular do que a monumental, perceber como as pessoas viviam na suas casas, que necessidades tinham e como encontraram as soluções… também o desafio de desenhar espaço público e contribuir para o bem-estar de uma população. E lembro também em férias de vir a Beja e andar pelas ruas com a cabeça levantada para olhar os edifícios de alto a baixo, ruas que conheci toda a vida mas agora ganhavam outros significados! Quis perceber melhor o meu Alentejo e também não queria ser mais um número na trágica estatística dos jovens que abandonam esta região, ainda por cima na minha área havia nessa altura um déficit de arquitetos que me permitia ter trabalho… e assim surgiram contatos com a câmara municipal de Serpa, que me acolheu em estágio durante o ano letivo em 1999/2000. E após 17 anos e muitos outros desafios profissionais, sempre em autarquias, eis que numa feliz coincidência regresso a Serpa… vivo em Beja e desenvolvo uma atividade privada em Alcaria da Serra (Vidigueira), é uma triangulação na qual me sinto muito feliz e finalmente consegui juntar a família, o amor e a realização profissional!

No decurso do seu percurso profissional sentiu a necessidade de alargar o âmbito da sua actividade a uma área que embora estando relacionada com a sua formação académica, se reveste de características completamente diferentes.

A Mosaicos d’Alcaria nasceu dessa sua necessidade/inquietação.

Quer falar-nos um pouco deste seu projecto?

Sou arquiteta e desde há muito apaixonada pelos mosaicos hidráulicos: cimento colorido de cores vibrantes e que de forma tão genuína decoravam o chão das casas do Alentejo. Quando em 2012 comprei uma casa antiga para reabilitar, tive muita dificuldade em encontrar soluções em Portugal, que não exigissem deslocação à fábrica e com poucas garantias de prazos de entrega. Porque não tornar uma paixão numa forma de vida, que ainda por cima eleva a tradição e o design português? Senti este apelo de me lançar numa aventura rumo à libertação artística e criativa, contribuindo ainda para o fortalecimento da nossa identidade cultural. No final de 2013 nasceu a marca Mosaicos d'Alcaria, impulsionada pelo concurso de empreendedorismo da Associação Acredita Portugal, que de entre mais de 14.000 projetos, premiou a ideia como uma das 150 semifinalistas e para mim, acabou por ser uma verdadeira plataforma de formação online, que me obrigou a pensar a sério nesta ideia que me perseguia há uns anos! Estruturar objetivos, procurar e estudar a concorrência, definir estratégias de marketing, planear e implementar estudos de mercado, pensar em protótipos para testar a adesão ao produto. O local escolhido para sediar o Atelier foi a casa dos meus avós maternos, também eles em tempos empresários com “venda” e “loja” (taberna e mercearia), em Alcaria da Serra, linda aldeia do concelho da Vidigueira. A experiência tem sido ótima e esta casa é um sítio com uma energia incrível… os mosaicos parecem pertencer-lhe desde sempre! Os clientes visitam um atelier na aldeia, familiar, autêntico e esteticamente apelativo. Num futuro próximo a casa terá também alojamento turístico para visitantes da aldeia, ou para os participantes dos workshops que o Atelier tem intenção de promover, potenciando os recursos endógenos desta característica aldeia do Alentejo. Nos Mosaicos d’Alcaria os sonhos dos clientes ganham vida através da assessoria técnica com simulações e desenhos de infinitos padrões e combinação de cores para revestimento de chão ou paredes, mas não tratamos o mosaico hidráulico como um simples material de construção... está associado a lifestyle e aos conceitos de bem-estar e contemporaneidade. Acredito que o mosaico hidráulico é um produto que vem do passado mas é do futuro, garantia de durabilidade, identidade e decoração únicas.

Para desenvolver qualquer actividade criativa, seja ela um projecto de arquitectura, seja o desenho de um mosaico, é necessário um certo ambiente de paz e tranquilidade.

Concorda?

Sem dúvida! Penso contudo que esta procura se reveste de diferentes características de pessoa para pessoa, o que é verdadeiramente importante é a tranquilidade interior que nos permite que o pensamento criativo cresça e nos direcione para outras atividades que não as tarefas normais do dia-a-dia.

Considera que se vivesse num grande centro populacional lhe seria mais difícil ter momentos de inspiração com a mesma qualidade? Porquê?

É uma questão aparentemente fácil de responder, mas… para quem já teve experiências de vida em grandes centros urbanos, sabe que há uma variedade de ofertas que não temos acesso na nossa região. São também elas inspirações que vamos absorvendo e que depois são importantes no processo criativo que desenvolvemos nos tais ambientes mas calmos e tranquilos. Considero sinceramente que o ideal é viver em família neste Alentejo em que o tempo corre de outra forma, e sempre que possível, dar umas “escapadinhas” a cidades frenéticas e estimulantes… é um equilíbrio necessário, só paz e sossego deixa-nos demasiado confortáveis e a inquietação do espírito é importante!

A Ana é uma pequena empresária que arriscou mas cujo reconhecimento é já evidente. Os seus mosaicos viajam pelo país, estão presentes em inúmeros espaços, compõem armários de recordações de muitas pessoas de renome, e são um património seu e da região, que desta forma é amplamente divulgada.

Da imensidão de mosaicos que tem feito, quer destacar-nos algumas peças que considere mais especiais? Qual o significado que têm para si?

A dada altura senti que os mosaicos hidráulicos não são só um material de construção, daí que a ideia empresarial inicial da fábrica de mosaicos se tenha ajustado ao longo destes 5 anos e é agora o Atelier de mosaico hidráulico “Mosaicos d’Alcaria… casas com Alma!”. Rapidamente me apercebi nas feiras e exposições onde participei que as pessoas tinham uma ligação afetiva a estes quadrados de cimento colorido 20x20cm das casas do sul… as memórias da casa dos avós, a casa na aldeia onde cresceram… e comecei a olhar para eles de forma individual e a levantá-los do chão para que pudessem de novo ir para dentro das casas das pessoas como um símbolo das suas memórias. O Atelier tem vindo a afirmar-se na área decorativa, integrando os mosaicos em peças utilitárias para a casa (quadros, descanso de tachos, tábuas de queijo, mesas, cabides) com ou sem gravações de texto e imagens. O assumir do Atelier vs Fábrica teve um impacto bastante positivo na evolução da empresa, tendo sido lançado um novo serviço de criação de painéis de arte urbana, do qual destaco uma rotunda na baía do Seixal que me deixa bastante orgulhosa, cujo promotor foi a câmara municipal, um conjunto escultórico composto por um muro revestido a mosaicos gravados e de padrão alusivos ao tema “Seixal Saudável”, complementado por uma estrutura em ferro de 5 metros que retrata os moldes com que são feitos os mosaicos hidráulicos. Também os mosaicos individuais gravados têm aumentado a procura, são ofertas com fotografias e composições gráficas de texto e imagens que se misturam nos padrões coloridos e surpreendem sempre quem os recebe. Familiares na época natalícia, comemorações de aniversários e casamentos, eventos culturais, ofertas de grupos corais e entidades coletivas diversas… e muitas personalidades nacionais também já foram “mosaicados”! - Marcelo Rebelo de Sousa, António Costa, Cristina Ferreira, Tim, João Gil, Vitorino ou Pedro Abrunhosa.

Em termos de mercado e divulgação do seu trabalho enquanto artesã dos Mosaicos d’Alcaria, sente algum tipo de constrangimento por estar numa área geográfica interior e distante dos grandes centros?

Não é uma logística fácil, mas as atuais ferramentas tecnológicas permitem a flexibilidade necessária no contato com os clientes... é no entanto inegável que as deficientes infraestruturas de transportes, públicos e privados, criam um distanciamento físico que impede o acesso facilitado ao Atelier. Por algumas vezes sou abordada por potenciais clientes que perguntam se não tenho pontos de venda em Lisboa ou noutros locais mais próximos… não é esta a nossa estratégia comercial, gosto de manter os mosaicos neste ambiente familiar e tranquilo de uma aldeia no Alentejo, dar a conhecer o nosso território a quem vem à procura dos mosaicos. Saem de Alcaria com um belo pão alentejano cozido em forno de lenha e um almoço de panela servido no café do lado. Todos os dias nos confrontamos com dificuldades nas nossas vidas e percursos profissionais, mas esta região é o nosso berço e mantenho a esperança de que o país nos trate com a dignidade que merecemos. O Baixo Alentejo é uma região com grande potencial patrimonial e humano que está permanentemente expectante de investimentos estruturantes que nos dêem o suporte para um desenvolvimento que com certeza saberemos promover. Não nos falta criatividade, paixão e vontade de gritar Alentejo!

 “Alentejo… um abraço que nos une, um sorriso que ilumina, um sonho a realizar…”

Como é que a sua alma artística define esta frase?

Respondo com uma quadra popular presente no cante alentejano e que expressa o meu sentimento por esta região. Apesar das dificuldades, o Alentejo mantém uma orgulhosa alma que nos cativa a cada passeio e a cada pôr-do-sol dolente, um consolo que não se esquece:

“Alentejo é qualquer coisa

Que trago dentro de mim

Onde o meu pensar poisa

Um amor que não tem fim.”



 

domingo, 15 de novembro de 2020

"Arte, Cidades, Alma - A Conexão como Alavanca"

“Onde nós nos ouvimos por dentro é casa também.” – As palavras de Pedro Abrunhosa que deram início à conferência Arte, Cidades, Alma – A Conexão como Alavanca.

Por ser urgente pensar as cidades, a arte, a alma, o património e as gentes, assim como perceber e debater a sua conexão e interligação, enquanto contributo para a alavancagem e construção do novo - entenda-se, futuro – sem deixar de questionar o modo como poderemos avançar, mudar paradigmas e corrigir lacunas sem que se coloque em causa a herança que nos foi sendo doada ao longo dos tempos, convidámos no passado dia 31 de Outubro, Pedro Abrunhosa, Bruno Ferreira e Paulo Barriga para uma tarde de reflexão conjunta no auditório do Centro Unesco, em Beja.

Desafiado a conceber um paralelismo entre versos de Mário Beirão e a presente realidade, Pedro Abrunhosa colocou-nos perante aquilo que, no seu entender, nos resta depois de tudo, o futuro e a luta permanente para que a existência encontre o seu sentido. “A Liberdade, o livre arbítrio, a construção do presente rumo ao futuro”, no sentido em que a estruturação de qualquer sociedade se iniciará sempre no presente, numa óptica de continuidade, resiliência e concepção de um tempo futuro, no qual o homem de hoje já não viverá.

Por esse motivo, afirmou Paulo Barriga, que uma cidade é composta por finas camadas históricas sobrepostas, “uma caixa de ressonância dos tempos passados”, onde a “impossibilidade material da cidade” converge no encontro do património edificado “com o acto cultural e a vivência”.  Desta forma, será “a ligação entre as pessoas, as políticas culturais, o passado de mil folhas sobrepostas (passado arquitectónico, urbanístico e arqueológico) quem transforma a cultura numa Obra”, a qual se designa cidade.

No entendimento de Bruno Ferreira, “o indivíduo, enquanto ser único, desenvolve-se num ambiente multicultural, com regras, padrões, crenças, o que transforma a cultura num processo de intercâmbio entre diversos indivíduos e comunidades, formando assim uma sociedade”. “A cidade é um jardim, cujas flores somos nós próprios, os cidadãos” e nessa perspetiva, será sempre necessária a existência de um “jardineiro dedicado” – referindo-se ao poder local - e artistas “que não sendo flores, são as abelhas que as polinizam, permitindo que sorriam”.

Num encadeamento de ideias, Pedro Abrunhosa propôs-nos reflectir sobre a visão de Platão de que nenhum homem se basta a si mesmo e sobre a possibilidade de “duas pessoas formarem uma cidade”. “Onde existem dois, existe uma relação de reciprocidade e a possibilidade de o acto de um interferir na liberdade do outro”- abordando com clareza a ideia Platónica da construção da cidade justa, uma Cidade-Estado que assumiria todos os valores morais, erguendo-se como a única forma de sociedade possível, segundo uma política que o filósofo definia como “arte que cura a alma e a torna o mais virtuosa possível”.

Pedro Abrunhosa desenvolve a temática: “Alma não é um conceito religioso. É um conceito orgânico. Fazem parte do homem o corpo e a alma que o habita”. “A cidade tem alma, porque é animada pelas pessoas, muito mais do que pela arquitectura. É a alma que caracteriza o local e o torna identitário. E a política é a arte do possível, a arte de gerir as vontades de toda a gente”. E sobre arte, “é tudo o que nos retira de um local, para nos levar para outro local diferente, que não tem que ser bonito. A arte não tem que ser bonita. Tem que nos transportar de um tempo para outro. É, talvez a par do conceito de Deus, a maior criação da humanidade”.

Já a “política é a gestão do dia a dia” e “aquilo a que hoje se assiste um pouco por toda a Europa é ao desaparecimento de cidades que outrora já se assumiram como grandes potências históricas, Beja é uma delas”. “As cidades perdem habitantes, massa crítica, artistas, perdem o público desses artistas, perdem quem ensina e quem aprende”, continuou Bruno Ferreira, frisando o quão importante é o papel dos cidadãos na manutenção das suas cidades e no grau de exigência para com os poderes executivos. “Seria interessante retornar ao Ágora, enquanto espaço livre de encontro e discussão” entre cultura e política, expressão máxima da esfera pública.

Concordando com a observação, Pedro Abrunhosa abordou o fenómeno das redes sociais que “fomentam o afastamento social e não a agregação social”, estabelecendo uma analogia com as palavras de Paulo Barriga, ao constatar que se assiste a uma (re)tribalização - um afastamento social premeditado, como se de tribos se tratasse, no maior retrocesso humano possível, em que os elementos de um mesmo grupo se reconhecem por características, ideias e ideais comuns, excluindo ou mantando os seus dissemelhantes. Segundo Pedro Abrunhosa, “as redes sociais só servem para gostar daquilo que já gostávamos, porque o algoritmo nos mostra aquilo que já conhecemos. A muralha à nossa volta revela-se ainda maior, porque deixamos de ter a percepção de que o outro existe. A incompreensão e a intolerância polarizam as pessoas, afastando-as cada vez mais”.

Já na recta final, e em opinião unânime, os elementos do painel defenderam que “é na cultura que os portugueses encontram razão para sustentar a sua autoestima”, tendo Pedro Abrunhosa definindo cultura como “tudo aquilo que necessita da mão do homem para existir. É o grande suporte do combate à ignorância”. E define-nos, tal como “o plástico define o século XX, porque isso também é cultura”.

Por seu lado, a arte acontece “quando pensamos em coisas que já não conseguimos colocar por palavras e nos silenciamos. Um silêncio de espanto perante uma Obra. Nenhuma língua traduz ou reproduz a emoção sentida, nem nunca será capaz de a explicar. Só explicam a arte, o silêncio e o espanto, sendo a arte o sítio para onde a linguagem escoa através do pensamento, do acto e da produção”.

 

Arte, Cidades, Alma – Aquilo que nos conecta.

Artigo de Rita Palma Nascimento



sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Conversamos com Buba Espinho

 

“Alentejo … um abraço que nos une, um sorriso que ilumina, um sonho a realizar …”

Sabemos que o Buba Espinho tem raízes profundamente alentejanas, tendo começado o seu percurso artístico através do cante. Que reflexão lhe suscita a frase?

Comecei no Cante Alentejano e oiço-o desde que me lembro. As minhas primeiras memórias musicais são de homens a cantar, de ver o meu pai a cantar em palcos, pelo que desde muito pequeno que sinto que o Alentejo se entranhou em mim na forma de Cante. A frase “… um abraço que nos une” remete-me para um universo comum entre Alentejanos, onde há sempre alguma coisa que nos une, e o Cante é, também, uma forma de união, porque qualquer Moda que se cante é sempre um bom pretexto para fazer novos amigos no Alentejo. E esta é a reflexão que faço, o Alentejo é, de facto, algo que nos liga uns aos outros, sejamos nós do Alto ou do Baixo. 

Sendo um jovem artista, que como muitos outros foi obrigado a partir na busca da concretização do sonho, como vê o actual momento cultural na região e que comentário lhe suscita a nomeação de artistas Bejenses para prémios de renome?

Não só os artistas de Beja, como a Arte em geral em Beja, têm imenso valor, porque aqui é possível criar sem qualquer pressão artística. E quando falo em pressão artística falo no profissionalismo das coisas. Nós fazemo-lo por amor e o amor é genuíno, essa diferença é notória. Todos os artistas Alentejanos que conheço, são grandes artistas por isso mesmo, porque acima de tudo têm imenso amor por aquilo que fazem. Sendo, por isso, normal que existam nomeações para Prémios, aqui, no Alentejo, existe realmente muita qualidade, tanto a nível musical, como no teatro (temos excelente actores)… como em tudo o que encerre arte. No Alentejo há muita gente a fazer coisas muito boas.

Quais são, na sua opinião, os principais factores determinantes na fixação de pessoas na região? É possível reverter a tendência da “partida”?

Uma excelente pergunta. Falando pela minha experiência, a partir do momento em que tomei como decisão de assumir uma carreira a solo, seria impossível fazê-lo em Beja, pelas dimensões reduzidas do mercado e pela falta de oportunidades (há muita coisa por fazer). Então, foi necessário dedicar-me à conquista de outros mercados, de outros públicos. A fixação é sempre uma questão difícil, porque dependerá sempre  de muitos factores. Em primeiro lugar depende do povo, das pessoas, do aprender a gostar daquilo que se faz por cá. Temos o exemplo do comércio tradicional que tem, ao longo dos tempos, sido trocado pelos centros comerciais e grandes superfícies, o que leva a que também os comerciantes locais não se consigam fixar, ou não consigam garantir a sua fiação. Na música é igual. Eu trabalho sobretudo em Casas de Fado, em Beja não existe nenhuma Casa de Fado, logo aí eu não conseguiria fazer a minha vida enquanto fadista em Beja.
Mas as coisas estão a mudar, para melhor, neste momento já existe Cante nas escolas, o que confere aos jovens uma certa responsabilidade sobre o seu património cultural. São cerca de 5 milhares de jovens nesta aprendizagem, o que é muito bom, significa que daqui por 20 anos, em 5 mil, existirão muitos a querer seguir pelo meio artístico. Nessa atura, penso que já se conseguirão fixar, uma vez que tudo depende da aprendizagem da cultura, e é necessário ensinarmos e habituarmos as nossas pessoas a gostarem da cultura. Se os jovens já estão a aprender desde tão cedo o que é essa nossa cultura, o que é a nossa música, o que é a nossa expressão, quando forem mais velhos isso será, para eles, algo natural e intrínseco, o que lhes permitirá fixarem-se na sua terra e fazer nela aquilo que mais gostam.  

Pensando em Beja como pólo de atracção, quer de investidores, quer de particulares das mais variadas áreas, se lhe fosse permitido tomar uma decisão executiva a favor da cultura, que pudesse influenciar, qual seria e porquê?

Claro como é óbvio. Regressar é sempre o sonho de qualquer um. Eu venho cá imensas vezes, talvez não tantas como gostaria, nem por tanto tempo como gostaria, o dever chama-me e o meu trabalho é lá em cima, mas o meu sonho é um dia voltar e criar cá a minha família, a minha própria família, porque família eu tenho cá e é ate é bastante grande. São eles quem me faz vir inúmeras vezes. Mas claro, o meu objectivo é alcançar a estabilidade para um dia poder voltar às minhas raízes.

No que toca à minha arte e aos meus géneros musicais, penso que ainda há muita coisa por fazer. Como referi há


pouco, o projecto do Cante nas Escolas foi uma excelente iniciativa, que trará imensos frutos no futuro, mas são necessárias muitas mais. Estou a lembrar-me de uma ideia do Jorge Benvinda, a Casa de Cante, que na altura em que o mesmo foi reconhecido como Património da Humanidade, profissionalizou um pouco mais o Cante, tendo criado 3 dias por semana a possibilidade de as pessoas assistirem a concertos de Cante Alentejano. Apenas e só a Cante Alentejano. Porque o que acontece, hoje em dia, é que o Cante é colocado em todo o lado. Há uma feira numa qualquer localidade e é possível ouvir cante, seja ela uma feira gastronómica, uma feira de vinhos ou de roupa. E o Cante é um género muito específico e que deve ser colocado em determinados locais com qualidade, para que os apreciadores possam apenas ouvir Cante Alentejano. De forma muito similar ao Fado, quem gosta de fado não vai a uma Casa de Fado apenas para jantar, vai para jantar e ouvir Fado. Então, na minha opinião, seria de interesse criarem-se as Casas de Cante em Beja, para possibilitar a quem gosta, a oportunidade de jantar e ouvir. Actualmente, na cidade, é pouco provável ouvir-se Cante, encontra-se um grupo de rapazes na rua a cantar, mas não se fica uma noite a ouvi-los. A criação destas Casas permitiria profissionalizar o Cante e conferir-lhe o valor que realmente tem enquanto Património da Humanidade.



segunda-feira, 28 de setembro de 2020

A Palavra a João Casaca

 

–“ Há 2 anos nunca pensaria ser possível chegar aqui. Isto porque este mundo da tecnologia, ainda faz confusão a muita gente.” – Afirmação feita pelo João em Novembro de 2019, no âmbito da sua participação na Lisboa Games Week 2019.

Quer fundamentar-nos esta afirmação?

Temos tido um caminho muito longo a percorrer, sentimos diariamente as dificuldades do que é estarmos sediados aqui no interior, mas, ao fim ao cabo, também dispomos de muita coisa positiva, uma qualidade de vida fantástica, uma pacatez ímpar… que são factores que também nos ajudam a desenvolver com mais qualidade estes projectos onde estamos inseridos. Há dois anos nunca pensámos chegar até aqui, a GeekCase eSports nasce de uma ideias de amigos que nutriam entre si o gosto pelos videojogos. Partiu também da ideia de outras pessoas que nutriam igual paixão, mas que não o faziam em termos de projecto, uma vez que, na altura, os videojogos funcionavam na nossa vida apenas como hobby. O facto de estarmos ligados à tecnologia e termos por trás uma empresa como a GeeKCase Sistemas Informáticos, levou a que conseguíssemos complementar a ideia da GeekCase eSports com a própria GeekCase Sistemas Informáticos.

  – A GeekCase eSports tem feito um caminho meritório e tem já reconhecimento internacional. Para aqui chegar há um longo caminho de empenho pessoal e profissional e muito espírito de sacrifício.

Sendo uma empresa sediada numa pequena cidade de interior, considera que o caminho poderia ter sido diferente se desenvolvesse a sua actividade numa grande cidade, ou pelo contrário, a pacatez e a tranquilidade da região são propícias ao desenvolvimento intelectual e criativo requeridos para alavancar o seu projecto?

A GeekCase é uma empresa cujo core business se centra nos sistemas de informação, trabalhamos todos os dias com tecnologia, estamos preparados para inovar e temos crescido muito nos últimos tempos. Tudo isto tem sido fruto de uma equipa que trabalha com muito esforço, com muita ambição, com muita motivação… tendo nós juntado todos estes valores ao projecto da GeekCase eSports. Esta última funciona como uma representação da primeira, mas envolvendo os videojogos. E não só, tudo isto passa por uma área educacional, podendo eu falar-vos de um projecto que temos agora entre Portugal e Brasil, e que surgiu através de um outro projecto que fechámos recentemente com o lançamento de um livro intitulado “Manual de Sobrevivência para Pais da Geração Gamer” (que já se encontra à venda através da GeekCase e no Brasil), cuja autora se chama Teresa Rodrigues e é mãe de um jogador de League of Legends conhecido na cine brasileira e também a nível mundial.  Juntando tudo, considerámos ser interessante colocar a GeekCase eSports num patamar diferente.

É muito gratificante para nós o facto de estarmos no Alentejo, porque actualmente, a nível nacional, somos a única organização do interior que está ao nível do topo de outras organizações que detêm uma estrutura mais sólida do que nós, com pouco mais de 2 anos de existência. Temos um longo caminho a percorrer e temo-lo feito com muito esforço, com muito tempo de dedicação ao projecto e chegar onde chegámos é um grande orgulho e permite-nos pensar no futuro, ambicionando que este projecto cresça e nos traga muitas mais valias.

Podemos afirmar que o estar sediado aqui no Alentejo é uma mais-valia para nós, pela qualidade de vida de que dispomos, o que é uma vantagem face às grandes metrópoles. Aqui temos, como é costume dizer, mais tempo para as coisas, cozinhamos as coisas, preparamos as coisas de uma maneira diferente. Quando nos deslocamos, por representação, a nível nacional e dizemos que somos do Alentejo, as pessoas identificam-se connosco, com a nossa humildade, com a nossa forma de estar na vida, com a nossa pacatez, com a nossa “lentidão” (no bom sentido) e isto demonstra que o estarmos inseridos no panorama nacional, sendo oriundos do Alentejo, nos permite ser mais acarinhados. Recordo que até nas nossas camisolas, em todo merchandising e em grande parte das publicações que fazemos, levamos o Alentejo connosco. Para nós é um orgulho, ou não fossemos nós alentejanos, termos decidido investir nesta região, apesar de todas as dificuldades. E as coisas tem-nos corrido bem, porque trabalhamos diariamente para isso.

A GeekCase e Sports começou pequenina, pela junção de dois amigos, eu como CEO e Founder e o Alexandre Brás, que passou como estagiário pela GeekCase Sistemas Informáticos (e quero aqui ressalvar que gostamos de envolver os colaboradores dessa empresa neste outro projecto). As coisas correram-nos bem, muito pelo mérito de um jogado de FIFA (de um para um) que esteve inicialmente connosco e que obteve excelentes resultados, tendo-nos permitido o reconhecimento nacional. Após um ano e meio, temos três modalidades: League of Legends, FIFA e CS Go, tanto na vertente um para um, como na vertente Pro Clubs (uma vertente que no FIFA é jogada de onze jogadores para onze jogadores).
As coisas foram acontecendo naturalmente e as pessoas que chegaram e que se identificaram com o projecto foram também obtendo resultados, sempre passando uma mensagem de humildade e de que tornar o impossível possível, sendo que isso depende exclusivamente de nós.
Já conseguimos alguns patrocinadores que nos ajudam com equipamentos e outros serviços importantes como deslocações e alojamento para os jogadores e, recentemente, fechámos um sponsor oficial que é a World of Gamer, que fabrica e vende produtos de gaming ao cliente final.

– Entrando concretamente na área dos eSports e no que representam, voltamos a citá-lo, quando diz que  “numa era fortemente marcada pelos videojogos, a indústria dos eSports já fatura atualmente mais do que a música e o cinema juntos. É impossível ficar indiferente a este tema, que para muitos ainda é um mistério.”

De facto, o mistério adensa-se. Quer desvendar-nos um pouco do mistério?

Falando um pouco mais sobre eSports, sendo o significado da palavra desportos eletrónicos, aquilo que eu sinto enquanto CEO da organizão, (sendo que a nível nacional já existem organizações que se transformaram em empresas), é que o público não sabe o que são os eSports. Questionam-me muitas vezes sobre aquilo que fazemos e o porquê de o fazermos, sentindo, eu, que existe uma grande falta de informação sobre esta industria. Talvez porque Portugal não está, ainda, ao nível de outros países onde os eSports já estão vinculados. Como exemplo posso falar na Coreia, país onde os eSports rendem muito e representam um valor muito elevado, sendo um desporto que se tornou mais visto do que o futebol mundial.
Há um longo a caminho a percorrer a nível de informação, e é necessário que se consiga fazer chegar com clareza às pessoas, de forma a desmistificar, a força dos eSports enquanto actividade e até mesmo empresarialmente.
Portugal tem crescido muito, há cada vez mais jogadores nacionais. Para se ter uma ideia, na vertente FIFA nós temos dos melhores jogadores do mundo, um dos 8 jogadores do top mundial é português. Curiosamente existem jogadores de futebol que viram nos eSports uma oportunidade empresarial e que montaram empresas onde têm outros jogadores com a mesma paixão a jogar.
Já existem em Portugal grandes eventos nesta área, a Lisboa Games Week realizada na FIL (onde estivemos) e a Moche XL: Universo do Gaming no ALtice Arena. São eventos que mobilizam milhares de pessoas, também na vertente educativa, porque os eSports são mais do que um jogo. Toda a componente que os envolve permite que um jogador competitivo desenvolva muito mais rapidamente áreas como a criatividade, o raciocínio lógico, a psicomotricidade que é algo bastante importante, o inglês, a matemática…
Em suma, os eSports são ainda um mistério, porque a sociedade não consegui ainda perceber a magnitude e amplitude desta indústria. Como nota, a nível mundial, os eSports facturam mais do que a junção do cinema e da música.

 – Fala-se muito em hubs tecnológicos, nomeadamente na zona de Braga e Porto, que têm tido uma forte aposta por parte de start ups. Contudo, é evidente que quem quer empreender na área da tecnologia não tem necessariamente que se fixar nessas zonas, sendo possível trabalhar, por exemplo, no Alentejo.

Na sua óptica, esses hubs têm tendência a fixar-se em determinadas regiões por algum motivo especial, ou é possível alargar a sua implantação a outras zonas do país? Quais as condições, que em seu entender, são fundamentais para a sua criação e fixação?


Podemos dizer que, em termos de hubs tecnológicos, as start ups, ou aquelas empresas que desenvolvem grandes projectos, terão sempre como mais valia o factor localização. Situam-se, por norma, em grandes metrópoles como Porto, Braga e Lisboa. Não quer dizer que essa seja uma condição obrigatória, mas a grande massa populacional é também sinónimo de uma maior abrangência de mercado, fazendo, desse modo, todo o sentido que estas empresas se situem nestas localizações.
Existem sempre características que o Alentejo tem e que não existem nas grandes cidades, como sejam a tranquilidade, ausência de stress, qualidade de vida… que acabam por criar condições de excelência para o desenvolvimento de projectos. Não é por acaso que os grandes empresários procuram o Alentejo como retiro de descanso e de inspiração. Aqui as coisas acontecem de uma outra forma.
Quer-me parecer que a fixação de start ups passa muito por, em outros pontos do país, existir o factor indústria, praticamente inexistente no Alentejo, e que é um ponto importante para a interpretação do poder do cliente. Aqui tudo passa por pequenas e médias empresas, até 10 ou no máximo 20 colaboradores, e este é o nosso cliente tipo. Logicamente, que sendo este um ponto fulcral para o desenvolvimento do negócio, as start ups tenham todo o interesse em se fixarem em meios urbanos de maior dimensão e de maior desenvolvimento, uma vez que lá lhes é permitido abranger um mercado mais amplo, permitindo-lhes também valorizar muito mais os seus projectos.
No entanto nós optámos por nos fixar aqui, com todos os seus prós e os seus contras. A nível de formação de novos profissionais, estamos bastante bem servidos com o IPBeja, instituição de ensino meritória no meu entender, que tem formado profissionais bastante aptos e competentes que estão neste momento a trabalhar em vários pontos do país, o que nos falta é investimento e criação de empresas, que não acontece, exatamente, porque se sente que o mercado está muito pouco desenvolvido. Por outro lado, o apoio às empresas é bastante reduzido, e nós sentimo-lo. Um empresário por contra própria terá sempre que fazer por si, terá que ser obrigatoriamente inovador, tem que ir à procura e tem que ser diferenciador. Isso é o que lhe vai permitir sobreviver. Ao nível da inovação temos feito várias novas apostas, como a criação de novas aplicações, marketing digital, ter o cuidado de passar uma mensagem diferente, por forma a chegar de forma diferente e construtiva às pessoas.
Aqui no Alentejo, como é meu costume dizer, o empresário por conta própria é um empresário guerreiro, porque é ele que tem que fazer acontecer, tem que conseguir perceber quais são as melhores estratégias e adequá-las à realidade da zona, tem que ir ao encontro dos seus clientes e tem que trabalhar o dobro, muitas vezes o triplo, para conseguir resultados que, numa grande cidade, se conseguiriam muito mais facilmente.

 

 – O Baixo-Alentejo depara-se com uma enorme falta de investimento com vista ao seu desenvolvimento, apesar de reunir condições ímpares para que tal seja uma realidade. Uma grande parte desse investimento terá forçosamente que ter origem na actividade privada.

Vê com bons olhos a entrada de startups de várias áreas na região do Alentejo?

 Se lhe fosse pedido que falasse para uma plateia, sobre as mais valias da implementação de uma startup na região de Beja,  para que convencesse essa mesma plateia a investir, quais seriam os seus argumentos?

 O facto de nós termos feito a nossa aposta no Alentejo, leva-nos a dizer que nos sentimos bem aqui, e aqui, a nossa empresa é também a nossa casa. 

Uma das razões, talvez a principal, pela qual considero que uma startup se deve sediar no Alentejo, é o facto de existir um grande nicho de mercado inexplorado. É por nós sentido, diariamente, que a tecnologia utilizada pelas nossas empresas está ainda muito aquém da tecnologia utilizada nas grandes empresas. Existe muito trabalho a fazer, muito desenvolvimento ainda por conseguir, pelo que uma startup que se fixe agora no Alentejo e consiga abranger o mercado de forma diferenciadora, ajudando, a nível tecnológico, estas empresas a crescer a todos os níveis (falo, até na formação de colaboradores, que é uma lacuna perfeitamente visível; ou na dificuldade da aceitação da tecnologia como veículo de desenvolvimento de negócios), terá sucesso garantido. Será, obviamente necessário, que esta star up seja capaz de mostrar que veio para ajudar, que a sua existência se deve à necessidade que existe em auxiliar o crescimento e o desenvolvimento dos seus clientes, de forma transparente e diferenciadora, passando a mensagem de que a tecnologia pode facilitar em muito as nossas tarefas diárias, reduzir tempos, ter um maior alcance, atingir outras metas não atingidas até ao momento. Não menos importante será a vertente humana, bastante valorizada por nós, que nos consideramos um povo afável, de braços abertos e que gosta de bem receber, uma vez que tecnologia sem valores humanos, característica que se tem ou não se ensina, jamais marcará a diferença.

 

 – “Alentejo … um abraço que nos une, um sorriso que ilumina, um sonho a realizar …”.

 


O Alentejo tem características peculiares. As pessoas, além de muito calorosas, recebem de uma forma que não se vê em mais lado nenhum. Quando se diz “um abraço que nos une”, em termos empresariais, penso de imediato na entreajuda, que é muitas vezes a base das boas parcerias e da própria sobrevivência. 

Este abraço será, não só, o abraço que nos acolhe, mas também aquele que damos uns aos outros, e também a quem nos chega de fora, para que juntos consigamos colocar o Alentejo no panorama nacional.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

A Palavra ao Presidente da Câmara Municipal de Beja - Dr. Paulo Arsénio

 – Faz dois anos que tivemos o privilégio de contar com a entrevista do Sr.Presidente na nossa revista Imobinvest, privilégio esse que nos é concedido de novo e que desde já agradecemos.

Dois anos e uns meses é também o espaço temporal deste mandato que vai a meio, e em que algumas alterações se verificaram no Concelho.

Do ponto de vista económico quer salientar os aspectos mais importantes que directa ou indirectamente poderão estar ligados a alguma forma de progressão entretanto verificada?

 

Salientamos que na Zona de Acolhimento Empresarial Norte se está em fase de infraestruturação dos lotes, e que já se avançou para uma segunda fase (com empreitada de infraestruturação ainda por lançar), permitindo a instalação de mais de duas dezenas de unidades industriais e comerciais em Beja. Temos também alienado lotes industriais noutras zonas da cidade de Beja para atividades especificas (Ex: Hospital Particular; Hospital Veterinário, etc.)  

O Município possui um gabinete específico para acolhimento e estudo de novos projectos a implementar por particulares no nosso território.

Qual é o feed-back que lhe é dado por parte desses investidores quanto à viabilidade de poderem instalar-se no Concelho?

Surgem projetos de várias caraterísticas no Gabinete de Apoio ao Investidor (GAI) da CM Beja. A maioria dos quais na área agrícola. Feita a análise dos mesmo, constata-se que alguns têm bases sólidas para prosseguir e que outros ainda precisam de ser trabalhados para poderem instalar-se na área do Concelho;     

 – Sabemos que Roma e Pavia não se fizeram num dia e que toda tramitação processual e burocrática relativa à instalação de uma empresa, seja ela qual for, demora algum tempo. Por outro lado temos conhecimento de que existem em curso alguns projectos interessantes a aguardar finalização.

Quer falar-nos sobre este aspecto?

A tramitação para abertura de uma empresa pode ser longa e morosa até à sua instalação. Desde logo porque é necessário – no caso dos lotes vendidos pela CM Beja – aguardar pela infraestruturação dos mesmos.  Muitas vezes as empresas também procuram financiamento para a implementação das suas ideias.

Em Beja neste momento de unidades novas que se podem prever, temos por exemplo uma fábrica de massas frescas e uma fábrica de cerveja em perspetiva. Isto no que concerne ao setor secundário.     

 

Encontrando-se o Concelho numa região essencialmente agrícola, lógico seria que existissem mais unidades agro-industriais, além das adegas e dos lagares.

Qual é na sua opinião o motivo pelo qual essas unidades não têm optado por Beja?

Estão a começar a optar. A Vila Galé terá até ao inicio do verão já uma unidade com essas caraterísticas em pleno funcionamento, dedicada à transformação das frutas da unidade em compotas, em produção de fruta desidratada e em embalamento de fruta.

Mais unidades deste tipo virão necessariamente para a região no futuro próximo. Creio que se está a ganhar a noção que é uma mais-valia transformar perto do lugar de produção. E depois da transformação agrícola do território que se deu por via de Alqueva, esse será o próximo passo a concretizar-se. Estabelecer no território as PME criadoras de emprego.       

 

O Concelho de Beja goza de uma localização geográfica privilegiada, que, sendo potenciada, permite que faça parte de um eixo norte-sul e este-oeste de bastante importância.

Sabemos que o Município tem insistido com a Administração Central no sentido de melhorar as acessibilidades, determinantes para o desenvolvimento socio-económico do Concelho.

Passados dois anos, que reflexão faz acerca deste tema e o que poderão os investidores esperar?

A CM Beja está a tentar junto do Governo antecipar o prazo das obras estruturantes em termos de rodovia e ferrovia que servem Beja.

Quer a A26, quer a eletrificação da linha férrea Beja-Casa Branca estão previstos no PNI 2030. Os prazos de conclusão indicativos são 2028 para a A26 e 2025 para a eletrificação da linha ferroviária. Se por um lado é bom que estas obras estejam no PNI 2030, interessa ter os projetos prontos quanto antes para que, assim que o novo quadro comunitário entre em execução estas obras possam desde logo avançar e, com isso, possam ter prazos de conclusão anteriores aos estimados;   

Em questões de urbanismo e habitação, o Concelho luta neste momento com alguns constrangimentos, decorrentes da falta de oferta, nomeadamente habitação para arrendamento a jovens e pessoas deslocadas profissionalmente.

Pode falar-nos acerca da perspectiva da Câmara Municipal para tentar colmatar este problema?

Por outro lado, existem algumas directivas relativamente ao Centro Histórico, que aloja muitos edifícios devolutos, uns de grande porte e outros de dimensões mais reduzidas, mas que recuperados, poderiam resolver uma parte do problema?

Nós estamos a recuperar um primeiro prédio no Centro Histórico (propriedade da CM Beja) e estamos a finalizar o projeto de mais outro, na mesma zona, para que sejam habitados por jovens ao abrigo de regulamento municipal já aprovado e com uma renda cerca de 20% abaixo do valor de mercado. Pretendemos dinamizar através de moradores. Julgamos que são os residentes a chave do impulso em qualquer lugar para eventualmente alavancar atividades complementares nas zonas. Também no Centro Histórico, cedemos uma habitação de grande dimensão ao Instituto Politécnico, em regime de comodato, no sentido do Instituto aí poder instalar estudantes da instituição.

Apostamos nos residentes e apostamos nos jovens para tentar inverter esta tendência de abandono dos Centros Históricos das cidades, nomeadamente da nossa. Estamos também a ultimar a “Estratégia Local de Habitação” de Beja que irá estabelecer soluções técnicas para determinadas ruas muito degradadas do Centro Histórico de Beja.         

 

 – Beja é uma cidade com um património histórico e cultural de grande valor, a par do património imaterial que é o cante, ou da gastronomia, vinhos e doçaria entre outros.

A Autarquia tem levado a cabo inúmeras actividades e eventos no sentido de promover o que temos de bom. Um sucesso as duas edições do Festival B que trouxeram imensos visitantes.

Quer falar-nos um pouco da vasta oferta cultural que Beja vive no momento, direcionada a vários gostos e atitudes de vida?

Procuramos ter uma oferta cultural diversificada. Desde logo no Pax-Júlia. O teatro municipal da cidade com capacidade para 618 espetadores. Mas também na Biblioteca, no Centro Unesco e na Casa da Cultura temos espetáculos e conferências de muita qualidade com regularidade.

Eventos como o Festival B, a Feira “Patrimónios do Sul”, a BejaRomana, o “É Natal em Beja”, o 25 de abril, entre outros, completam o rol de eventos culturais que tornam Beja num concelho fantástico nessa matéria.

As freguesias acrescentam muita qualidade cultural ao concelho com a promoção de recursos endógenos (Festival da Silarca da Cabeça Gorda, por exemplo) ou de artes e ofícios tradicionais (Festival Sabores no Barro de Beringel, por exemplo)         

 

 – Beja é uma cidade produtora de talentos, tantos deles de renome.

Considera que a alma deste povo que pensa, que faz, que tem qualidade, que luta pelos seus sonhos e ideiais, poderá estar relacionada com interioridade geográfica, que directa e indirectamente, conduz a uma profundidade interior?

 Realmente o que fazemos/produzimos tem muita qualidade. Seja em termos artísticos, seja em termos gastronómicos, seja noutros aspetos. Julgo que isso deve orgulhar-nos e orgulhar-nos muito. O motivo dessa superior qualidade que apresentamos, não o conheço especificamente. Mas é óptimo que sejamos associados a coisas boas, ao “saber fazer”. Essa é melhor forma de promoção que podemos ter para o nosso território.   

 

Falámos já da componente socio-económica, habitacional e cultural.

Em termos de apoios sociais, o que é que o Presidente da Câmara enfatiza, como importante para a população residente e para quem queira vir para cá residir?

Os apoios sociais existentes no concelho são os que estão devidamente regulamentados em termos municipais. 

Neste aspeto sublinho que estamos a dar uma particular atenção à matéria da acessibilidade. Tornar o concelho tão acessível quanto possível a todos. Criar percursos acessíveis, dotar os edifícios públicos de acessos para todos, etc. Criar numa primeira fase um Centro Histórico acessível numa primeira fase, depois o restante concelho progressivamente.

Esta é uma matéria de inclusão e de igualdade de oportunidades administrativas, culturais e sociais entre todos. Esta transformação das cidades é lenta. Demora décadas. Mas pensamos que devemos dar passos fortes na concretização plena de estruturar localidades onde qualquer pessoa possa circular facilmente.  

     

A oferta formativa no Concelho encontra-se novamente numa fase crescente em termos de ensino superior, pela mão do Instituto Politécnico de Beja, que está a fazer um excelente trabalho quer na componente lectiva, quer na investigação.

Existe uma colaboração entre a Câmara Municipal e o IPB no sentido de conjugar esforços, por forma a potenciar o desenvolvimento de alguns quadrantes?

Existe uma forte colaboração entre o IP Beja e a CM Beja.

Existe na cedência de espaços da CM Beja ao IP Beja para alojamento de alunos, por exemplo:

Existe no CEBAL, por exemplo;

Existe na Universidade Sénior, por exemplo;

Existe no projeto U-Bike, por exemplo;

Existe em termos de parceria na tentativa de captação de projetos tecnológicos de grande dimensão para o concelho, por exemplo;

A CM Beja e o IP Beja estão perfeitamente sintonizados e com isso é a região que tem a ganhar, para além de ser um forte sinal de confiança que também transmitimos aos investidores que queiram vir estabelecer-se em Beja;

       

Por fim, a pergunta da praxe: Aeroporto de Beja.

Qual o seu comentário, passados que foram dois anos de negociações, lutas, alegrias e tristezas?

O Aeroporto de Beja irá começar a ser aquilo que sempre esteve previsto ser mas que não havia meio de se conseguir: afirmar-se como uma das principais plataformas nacionais de reparação e manutenção de aeronaves;

Complementarmente pode ter outras valências, como sejam o tráfego aéreo de passageiros seja através de voos regulares, charters ou jatos privados.

Porém a vertente industrial do equipamento será certamente aquela que mais emprego criará em Beja nos próximos anos, aquela em que a estrutura mais conseguirá desenvolver-se, em que mais riqueza deixará no território e mais útil pode vir a ser. E isso é excelente.   

Vale a pena trabalhar pelo Aeroporto de Beja. A minha primeira reunião de trabalho enquanto Presidente de Câmara, em outubro de 2017, foi precisamente com a HIFly e a MESA. Passados perto de dois anos e meio sobre essa reunião, é um gosto ver aquele enorme hangar a crescer e saber que tudo começou naquele dia, sentados à mesa do salão nobre da Câmara Municipal.

Aquele foi o dia em que o Aeroporto de Beja efetivamente começou a descolar.  E irá ter um futuro muito mas muito risonho.         

 

“Alentejo … um abraço que nos une, um sorriso que ilumina, um sonho a realizar …”.

Sim, ou não?

Sim. Sempre.


Porquê?


Porque qualquer território está sempre incompleto. Há sempre mais a fazer, mais a realizar, mais para intervir; É isso que torna também a vida tão fantástica. É isso que nos motiva em cada dia de trabalho; Que podemos estar um passo mais perto de realizar essa tal sonho, sempre incompleto. 

Já agora… prefiro que se fale num Baixo-Alentejo com a capital em Beja. Sempre foi isso que defendi e defenderei quando a regionalização se voltar a colocar em debate.  

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

A palavra a Filipe Pombeiro

 


 – Beja é uma cidade com características muito próprias, que ao nível empresarial, quer ao nível social e laboral. Enquanto Presidente do NERBE, qual a análise que faz do tecido empresarial da região?

O tecido empresarial regional é constituído na sua grande maioria por pequenas empresas, como aliás é característica do tecido empresarial do País. Ainda assim, nos últimos anos temos assistido a um crescimento sustentado de muitas empresas, em especial no setor agrícola e agroalimentar.

Claro que a interioridade da região encerra algumas dificuldades em especial para setores mais tradicionais, mas de uma forma geral assistimos a uma melhoria na competitividade das nossas empresas nos últimos anos.

 – Possuindo a região de Beja condições únicas em termos de localização e potencial de crescimento, quais são na sua opinião os principais handicaps que têm, ao longo do tempo, impedido o crescimento e o desenvolvimento regional?

É uma resposta complexa, já que, são vários os fatores que historicamente contribuíram para o atraso da região em termos da sua economia. Conforme sabemos passámos por um período complicado em termos políticos e económicos que estrangulou a economia regional, o que nos obrigou a um esforço muito grande para fortalecemos as nossas empresas para competir com as demais.

Felizmente Alqueva, veio alavancar o crescimento do Agronegócio e este trouxe efeitos de contágio muito positivos para a economia regional.

Neste momento os principais constrangimentos para ser possível aproveitar a nossa condição geoestratégica são a falta de acessibilidades e concreto a eletrificação e modernização da ligação ferroviária do Alentejo até à Funcheira e a conclusão do IP8/A26.

Estes importantes investimentos permitirão servir a região e serão um importante impulso para o maior aproveitamento do Aeroporto de Beja e, deveria ser o alvo principal em termos de investimento público na região.

 – Vivemos tempos em que o paradigma está a mudar, e em que se impõe também uma certa mudança de mentalidades. A forma como o empresário olha para o seu negócio carece de evolução e adaptação. Considera que estão reunidas as condições e as ferramentas necessárias para que a mudança seja uma realidade?

É uma mudança que já sente na maioria das empresas. A nossa preocupação com a sustentabilidade nas suas mais diversas vertentes é hoje evidente. O empresário é hoje atento, procura novos mercados e sobretudo tem um cuidado muito grande em reter os seus maiores ativos, que são os seus colaboradores porque são estes que fazem a diferença no crescimentos e diferenciação das empresas.

 – Se um empresário/investidor de outra região ou de outro país quiser investir em Beja, ou na região de Beja, quais são, na sua óptica os principais items com os quais deverá preocupar-se antes de se fixar?

Antes de mais penso que se deverá dirigir a uma associação empresarial, como a nossa ou como outras que estão no território porque são centros de informação atual e privilegiada e poderão encaminhar o negócio desde o primeiro dia.

Questões como a localização, a necessidade de recursos humanos, fontes de financiamento, legislação e licenciamento necessário, serão fundamentais para o arranque do negócio.

 – E manifesta a urgência e a importância de um investimento estrutural na região, que possibilite a fixação de empresas e pessoas. Independentemente dessa necessidade, tem existido um investimento crescente, não só na agricultura, mas noutras áreas. Sabemos que existem neste momento investidores diversos a estudar a possibilidade de empreender em Beja. Qual a alavanca que falta, para que possamos ter essa realidade?

O Alentejo é seguramente uma das áreas do País em que mais investimento privado tem sido feito nos últimos anos e, nesse sentido estamos no bom caminho ainda que o investimento público para resolver os constrangimentos referidos tenha de se concretizar para libertar a tal alavanca que refere.

De resto, existem uma série de investimentos previstos, nas áreas da saúde, das energias renováveis, aeronáuticas, entre outras, que seguramente num futuro próximo trarão maior progresso à região.

 – “Alentejo … um abraço que nos une, um sorriso que ilumina, um sonho a realizar …” – Sim ou não?

Claro que sim! É algo que não se consegue explicar, os que cá ficámos batalhamos arduamente para que o sonho que concretize, os que não ficaram mas que deixaram cá os seus corações quando regressam percebem as diferenças mas todos ficamos com a sensação que custa mais, demora mais, mas acabaremos por lá chegar. E quando chegarmos marcamos como sempre a diferença!

 

A Palavra à Equipa - Maximiano Ferreira

"A essência da mediação imobiliária difere dos grandes centros urbanos para os pequenos. Vindo de uma grande capital e chegado a uma pe...